Dirigimos o Lepas L6 híbrido na China: SUV agrada na estrada, mas precisa melhorar por dentro
Rodamos 720 km pela China com o SUV de 279 cv que chegará ao Brasil em 2027
Você acha que dirigir na China é complicado? Pois tiramos nossa habilitação local e descobrimos que tudo é bem mais simples do que se imagina. As estradas são bem sinalizadas e têm excelente asfalto. Numa viagem entre Xangai e Wuhu, margeando o lago Qiandao e serpenteando pelo delta do Rio Yangtzé, percorremos 720 quilômetros em um “tapete” sem qualquer buraco ou remendo.
Pelo caminho, avaliamos o SUV Lepas L6 PHEV, que tem chegada ao Brasil prevista para o segundo semestre do ano que vem. A Lepas (pronuncia-se “Lépas”) é uma divisão criada pelo grupo Chery especialmente para exportação. Lançada em 2025, a marca tem se expandido rapidamente por países do Sudeste Asiático, Oriente Médio, África e Europa. Alguns de seus mercados mais recentes são a Itália e o Reino Unido.
Na China, seus carros levam outros nomes: o Lepas L6, por exemplo, é vendido no mercado doméstico como Fengyún T7 (“vento e nuvens” em chinês) ou Fulwin T7. Além do L6, a marca tem os SUVs L4 e L8.
O nome Lepas vem de “leopard” e “passion”. A ideia é que seja uma marca voltada para tecnologia e eletrificação, ficando um degrau acima das coirmãs Omoda e Jaecoo. Mas isso em teoria, como veremos adiante…
Um SUV médio
O Lepas L6 híbrido plug-in com que viajamos utiliza um motor 1.5 turbo a gasolina associado a uma unidade elétrica, com potência combinada de 279 cv — é o mesmo conjunto mecânico dos Jaecoo 7 PHEV e Tiggo 7 Pro PHEV. Há ainda um L6 elétrico puro (com 242 cv e diferenças no estilo da dianteira) que também chegará ao Brasil.
Com 4,55 metros de comprimento, 1,85 m de largura e 2,70 m de entre-eixos, o Lepas L6 não é um SUV tão grande quanto sua aparência pode sugerir. É apenas um pouco maior que o Jaecoo 7, com o qual deverá disputar uma faixa semelhante do mercado.
O desenho tenta transmitir uma imagem mais elegante que a dos demais SUVs do grupo Chery. A inspiração declarada pelos estilistas é a figura de um leopardo, algo evidente nos faróis, cujo formato reproduz o olhar do felino.
A dianteira do PHEV tem um quê de Jaguar F-Pace. Sua enorme grade, porém, exibe uma trama que lembra uma teia de aranha. Nesse aspecto, a versão totalmente elétrica é visualmente mais interessante, com uma frente fechada e de desenho mais limpo.
A traseira tem lanternas horizontais interligadas e o nome Lepas escrito em destaque. A tipografia e a disposição das letras lembram a identificação utilizada pelos antigos Porsche Cayenne, uma referência visual que combina bem com as linhas da carroceria.
Em nossa viagem a Wuhu, tivemos ainda a oportunidade de ver (mas não fotografar) os protótipos dos próximos modelos da Lepas, que terão desenhos com mais personalidade e impacto que os do atual L6.
Acerto de chão merece elogios
Foi na estrada que o L6 mostrou sua melhor qualidade. Os Lepas usam uma plataforma nova e, por enquanto, exclusiva da marca. Trata-se da LEX, uma evolução da base T1X usada em outros modelos do grupo Chery.
O modelo tem um acerto de chassi surpreendentemente bom e um equilíbrio que seria difícil imaginar em um automóvel chinês de alguns anos atrás. Boa parte do mérito se deve à suspensão traseira multibraço, montada sobre um subchassi auxiliar. Essa configuração permite controlar melhor os movimentos das rodas e isolar parte das vibrações transmitidas à carroceria. Nas mudanças de direção, a carroceria permanece bem controlada, sem apresentar rolagem excessiva. O conjunto transmite uma agradável sensação de firmeza, sem comprometer o conforto.
Outro aspecto positivo é o peso dos comandos. A direção é bem calibrada, sem exageros na assistência elétrica. O pedal do acelerador é articulado no assoalho. Há ainda a opção de ajustar individualmente as respostas da direção, do acelerador, dos freios e da regeneração de energia na central multimídia.
Depois de dois dias ao volante, chegamos descansados. O L6 é um carro muito agradável de guiar, com respostas progressivas e uma sensação de controle que inspira confiança.
Silêncio e torque imediato
O sistema híbrido plug-in combina um motor de quatro cilindros a gasolina, 1.5 turbo com injeção direta, a um motor elétrico de 204 cv. A potência combinada anunciada é de 279 cv, com torque máximo de 36,5 kgfm. A transmissão é a DHT (Dedicated Hybrid Transmission), de marcha única, com tração dianteira.
Ao volante, chama a atenção a disponibilidade imediata de torque. Basta chamar no pé direito para sentir uma pancada de força, sem que seja necessário esperar o motor a combustão ganhar giro. O isolamento acústico também merece elogios. Durante a maior parte da viagem, o L6 rodou em silêncio, e a transição entre a propulsão elétrica e o funcionamento do motor a gasolina aconteceu de maneira praticamente imperceptível.
Depois de percorrermos os 487 quilômetros iniciais, o indicador mostrava apenas 14% de carga na bateria, embora o computador de bordo ainda estimasse 560 quilômetros de autonomia restante. Foi nesse momento que ouvimos o motor a combustão trabalhar de maneira mais evidente para gerar eletricidade. Mesmo assim, o ruído durou pouco — e a paz voltou a reinar até o final do percurso.
A bateria de fosfato de ferro-lítio (LFP) tem capacidade anunciada de 18,4 kWh. Segundo a fabricante, permite percorrer até 92 km na estrada ou 125 km na cidade só com eletricidade, enquanto a autonomia total é de 1.058 quilômetros (sempre pelo ciclo WLTC), graças ao tanque de 60 litros.
Consumo surpreendente
Outro ponto positivo foi o consumo de combustível registrado durante a viagem. Em diferentes momentos, o computador de bordo indicou médias de 3,9 a 4,2 litros de gasolina a cada 100 quilômetros, equivalentes a aproximadamente 25,6 e 23,8 km/l, respectivamente.
São resultados muito bons para um SUV de 1,8 tonelada, embora precisem ser interpretados com cautela. Como acontece com qualquer híbrido plug-in, o consumo depende da quantidade de energia inicialmente disponível na bateria, da proporção entre trechos urbanos e rodoviários e do gerenciamento eletrônico do sistema. Também é importante considerar que a gasolina utilizada na China tem características diferentes da brasileira, especialmente quanto à proporção de etanol (em geral, E10 ou até mesmo E0).
De qualquer maneira, a viagem mostrou que o L6 PHEV pode manter médias de consumo extremamente baixas mesmo em longos percursos.
Ótimo espaço
O entre-eixos de 2,70 metros garante um bom aproveitamento do espaço interno. Quatro adultos viajam com muita folga, especialmente para as pernas de quem vai no banco de trás. O assento traseiro, porém, é baixo em relação ao assoalho, o que compromete o conforto em viagens mais longas.
Na frente, a situação é melhor. Os dois bancos têm amplos ajustes elétricos, além de aquecimento e ventilação. O volante tem boa pega e há um grande teto solar panorâmico com abertura, que contribui para a sensação de amplitude na cabine. O console central é bem alto, mas seu desenho vazado deixa um compartimento para objetos na parte inferior. Essa solução evita que a estrutura interfira tanto no espaço para os joelhos.
O painel de instrumentos digital, com aproximadamente oito polegadas, é pequeno e tem apresentação muito simples. Com belos gráficos, a central multimídia vertical de 13,2 polegadas concentra boa parte das funções do veículo, acompanhando a tendência de reduzir ao mínimo a quantidade de comandos físicos. Quem é chegado numa tecla não vai curtir.
Mas o maior problema está na qualidade percebida dos materiais de acabamento. Há plástico rígido em excesso, especialmente nos painéis das portas traseiras, além de superfícies decorativas que procuram imitar uma espécie de madeira cinzenta. O resultado não convence.
Para uma marca que pretende conquistar compradores interessados em sofisticação, a Lepas terá de melhorar a escolha dos materiais e o tratamento das superfícies internas antes da estreia brasileira (o L6 EV que vimos parecia melhor que o PHEV em termos de aparência).
Com 397 litros, o porta-malas também não impressiona. É relativamente raso e não oferece a capacidade que se poderia esperar de um veículo familiar desse porte. Tampouco há estepe, uma ausência que merece atenção especial nas condições de utilização brasileiras.
Algumas soluções ergonômicas exigem uma adaptação inicial. Os comandos dos vidros elétricos, por exemplo, ficam bem próximos às maçanetas internas — e têm o mesmo formato e tipo de acionamento. No dia a dia, o motorista pode se confundir.
Há lugar para a Lepas no Brasil?
A questão mais difícil não está na engenharia, mas no mercado. A Lepas pretende apresentar seus modelos como produtos de categoria superior à dos Omoda, Jaecoo e Tiggo. Na prática, contudo, todos eles acabam se amontoando nos mesmos segmentos — haverá espaço para tantas marcas de um mesmo grupo?
O L6 é um carro gostoso de guiar, potente e econômico, mas ainda não transmite a sofisticação necessária para justificar preços mais elevados que os do Leapmotor B10 ou do Geely EX5, por exemplo. Com previsão de ter entre 50 e 60 concessionárias no ano que vem, a Lepas precisará caprichar mais no acabamento de seus carros para conquistar o público brasileiro.
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