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Salão de Pequim 2026: estrelas que já brilhavam antes da eletrificação

Marcas tradicionais mostram o que as chinesas ainda não têm: história

BMW 2002 tii (1971)
Foto de: Motor1 Brasil

Nem tudo é alta tecnologia no Salão de Pequim de 2026, que se encerra neste domingo (3/5). Para enfrentar o avanço avassalador das marcas chinesas, as fabricantes tradicionais - em especial as alemãs - recorrem a um trunfo que suas rivais ainda não conseguem replicar: a relevância histórica. Percorremos os estandes do parque de exposições Shunyi Guan e, entre uma novidade e outra, fotografamos os clássicos para nossos leitores.

MERCEDES-BENZ

Em matéria de carro antigo, ninguém superou a Mercedes-Benz que, para comemorar seus 140 anos, trouxe para a China uma amostra representativa de seu museu em Stuttgart. Logo na entrada principal do estande, há um exemplar do famoso Benz Patent-Motorwagen (1886–1893), o primeiro automóvel de produção seriada no mundo.

Mais adiante, temos um lindo Mercedes-Benz 540K coupé (W29), produzido em 1936. Era o padrão máximo dos carros de luxo alemães da época, com diversos tipos de carroceria e produção altamente personalizada. Trazia motor de oito cilindros em linha e 5,4 litros — daí o nome 540. A letra “K” vinha de Kompressor, um compressor Roots que levava a potência a 180 cv.

Mercedes-Benz 300 SL Coupé (W198), 1954 (2)

Mercedes-Benz 300 SL Coupé (W198), 1954

Foto de: Motor1 Brasil

Seguindo a ordem cronológica, vemos outro supercarro de seu tempo: o 300 SL Coupé (W198), de 1954. Com portas ao estilo asa de gaivota, é um dos esportivos mais marcantes do século XX. Com seu motor de seis cilindros em linha e 3 litros, podia atingir 235 km/h ou 265 km/h, dependendo da relação de transmissão. Foi o carro de série mais rápido de sua época.

Ainda na linha esportiva revolucionária, há um raríssimo C111. Apenas 16 exemplares desse carro experimental foram produzidos entre 1969 e 1970. Tinha motor central e carroceria de fibra de vidro com excelente aerodinâmica (Cx de 0,195). Serviu como plataforma para testes de novas tecnologias, como motores Wankel, turbodiesel e suspensões multilink. Apesar de não serem destinados à venda, os protótipos tinham acabamento caprichado, com ar-condicionado e interior revestido em couro. Em 1979, um exemplar com motor V8 biturbo a gasolina foi cronometrado a 403 km/h no circuito de Nardò, na Itália.

Falando em tecnologia, há ainda um sedã W116 (1972–1980), como tantos que circulam no Brasil. Primeira geração oficialmente chamada de Classe S, reunia recursos de segurança raros ou inéditos na época, como interior acolchoado, apoios de cabeça com rebaixo central e formas arredondadas na carroceria para reduzir lesões a pedestres. Em 1978, tornou-se o primeiro carro de série com ABS eletrônico, desenvolvido pela Bosch.

Auto Union Typ C no estande da Audi

Auto Union Typ C no estande da Audi

Foto de: Motor1 Brasil

AUDI

A Audi aproveita seu ano de estreia na Fórmula 1 para mostrar que sua tradição em corridas vem de longe. A marca das quatro argolas trouxe ao Auto China 2026 um exemplar do lendário monoposto Auto Union. Esses carros foram projetados por Ferdinand Porsche para os Grand Prix do período pré-F1, competindo entre 1934 e 1939. Revolucionários, foram pioneiros no uso de motor central, chassis tubular e materiais ultraleves.

O exemplar exposto é um Typ C (1936–1937), última versão com motor V16. Com 6 litros e compressor Roots, rendia entre 485 cv e 520 cv e chegava perto dos 340 km/h — uma insanidade completa, levando-se em conta os pneus então disponíveis e a falta de recursos como aerofólios para segurar o carro no chão.

Um Auto Union Typ C participou do GP do Rio de Janeiro de 1937, no Circuito da Gávea. Pilotado por Hans Stuck, terminou em segundo lugar, atrás do Alfa Romeo 8C-35 de Carlo Pintacuda. Em 61 corridas, os Auto Union conquistaram 24 vitórias, 23 segundos lugares e 17 terceiros. Em provas de subida de montanha, venceram 18 de 23 disputas. Eram carros muito à frente de seu tempo — somente três décadas depois o motor central se tornaria padrão na Fórmula 1.

BMW

A marca da Baviera relembra os 60 anos da Série 02 (1966–1977), linha que consolidou a recuperação financeira da companhia. A família adaptava a arquitetura dos modelos Neue Klasse (1962–1972) a um formato mais compacto, leve e ágil — base do DNA dinâmico da BMW.

O projeto traduzia o conceito “Freude am Fahren” (“prazer de dirigir”), demonstrando que um sedã compacto podia oferecer acerto de suspensão e distribuição de peso capazes de enfrentar carros esportivos em estradas sinuosas e nas pistas.

Lançado em 1968, o BMW 2002 representou o auge dessa linhagem. Surgiu a partir da iniciativa de engenheiros como Alex von Falkenhausen e Helmut Werner Bönsch, que instalaram motores de 2 litros em seus 1600-2 pessoais. O resultado foi um dos primeiros sedãs compactos esportivos de sucesso global, com papel decisivo na consolidação da BMW nos Estados Unidos.

Em 1973, o BMW 2002 Turbo entrou para a história como o primeiro carro europeu de produção com turbocompressor. Com apenas 1.080 kg e 170 cv, entregava desempenho notável para a época. A Série 02 não apenas garantiu o futuro da empresa, como abriu caminho para a Série 3.

O exemplar exibido em Pequim é um 2002 tii, versão aspirada com injeção mecânica Kugelfischer (1971–1975). De quebra, é pintado de Inka-Orange, cor que se tornou emblemática na linha BMW.

Porsche  356 B Cabriolet (1960-1961) (3)

Porsche 356 B Cabriolet (1960-1961)

Foto de: Motor1 Brasil

PORSCHE

O grande lançamento da Porsche em Pequim é o Cayenne Turbo Coupé elétrico. Mas, ali ao lado, numa garagem cenográfica montada no estande, um modelo bem menor e de linhas puras chama a atenção: o 356. Sem cerimônia, os visitantes abrem e fecham a porta (é cada pancada…) e examinam todos os detalhes do clássico.

Lançado em 1948, o 356 foi o primeiro carro de produção da Porsche. As unidades iniciais foram construídas artesanalmente em Gmünd, na Áustria, com carrocerias de alumínio— menos de 50 unidades foram feitas, utilizando muitos componentes do Fusca. Em 1950, a produção mudou para Zuffenhausen, na Alemanha, onde passou a utilizar carrocerias de aço.

Ao longo dos anos, o modelo evoluiu em estilo, mecânica e qualidade de construção. Os exemplares até 1955 são conhecidos como pré-A, seguidos pelas versões A, B e C, até o fim da produção em 1965.

O exemplar mostrado no Auto China 2026 é um 356 B Cabriolet. Essa geração estreou no fim de 1959, como modelo 1960, trazendo mudanças bem perceptíveis no estilo e na estrutura. A carroceria T5 trouxe para-choques mais altos, garras maiores, interior revisado e alça do capô mais proeminente e larga. 

Embora não fosse tão elegante quanto seus antecessores, o 356 B era um carro mais robusto e, ao mesmo tempo, refinado, pensado para ampliar o apelo da Porsche em um mercado global em expansão. Era equipado com motor boxer de quatro cilindros e 1.582 cm³, refrigerado a ar. A potência variava conforme a versão: 60 cv (1600), 75 cv (Super) e 90 cv (Super 90).

Honda Accord hatch de primeira geração (1979)
Foto de: Motor1 Brasil

HONDA

Há 50 anos, nascia a primeira geração do Accord. Era um modelo de tamanho contido, vendido inicialmente nas versões hatch de duas portas (4,21 m) e sedã de quatro portas (4,41 m). E, assim, a Honda ampliou sua atuação para além de subcompactos como N600 e Civic.

Tecnicamente, o primeiro Accord se destacou pela tecnologia CVCC (Compound Vortex Controlled Combustion). O motor utilizava duas câmaras de combustão: uma pré-câmara com mistura rica e uma câmara principal com mistura pobre. A ignição começava na pré-câmara e se propagava em forma de vórtice, garantindo queima mais eficiente.

Assim, o motor de 1,6 litro (depois 1,8 litro) atendia às rígidas normas de emissões dos EUA mesmo sem catalisador. Apesar de ser amordaçado em meros 68 cv, o carro pesava menos de uma tonelada, o que garantia boa relação peso-potência frente aos gigantescos sedãs V8 americanos da época.

Galeria: História - Clássicos no Salão de Pequim

O modelo oferecia itens avançados para um compacto, como câmbio manual de cinco marchas, cabeçote de alumínio e painel com indicadores de manutenção. Seu sucesso fez com que se tornasse o primeiro carro de marca japonesa produzido nos EUA.

O exemplar mostrado no estande da GAC Honda é um hatch da primeira geração voltado para o mercado do Japão, com direção à direita e retrovisores nos para-lamas (em japonês, fendamira — corruptela do inglês fender mirror).


O que você pensa sobre isso?

Com o tempo, o Accord cresceu. Quando chegou ao Brasil, já estava na quarta geração, como um sedã médio-grande. Hoje, na 11ª geração, é um modelo de quase 5 metros de comprimento, distante da proposta original.

Para completar, a GAC Honda levou ao estande um McLaren MP4/5 da temporada de 1989 com a pintura de Ayrton Senna. Os visitantes fazem fila para entrar no cockpit — que, aliás, está vazio.

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