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Coluna do Edu: os Salões do Automóvel estão mortos? Não na China

Enquanto ocidente vive questões com orçamento, salão chinês nunca foi tão importante para o mundo

GAC no Salão do Automóvel
Foto de: Motor1 Brasil

Enquanto você lê essa coluna, publicada hoje, quarta 22, eu estarei cruzando a Ásia em direção à China. Peguei um voo de São Paulo ontem de madrugada e fiz conexão em Dubai, nos Emirados Árabes.

É a oitava ou nona vez que vou à China, impreterivelmente nos meses de abril para trabalhar nos salões do automóvel que eles organizam. Todo ano par, a mostra acontece em Pequim; nos ímpares, ela se desloca para Shanghai. Verei por lá mais de 1.500 carros e cerca de 150 lançamentos.

“Ah, Edu, mas você não defende que os salões morreram? Como a China consegue organizar mostras com toda essa pujança?

Pra começar, não fui eu que decretei a morte dos salões no formato tradicional de como os conhecíamos. Foi o público. E isso ocorreu em todo o mundo. Várias mostras tradicionais, como Paris e Frankfurt, sucumbiram à exigência do visitante em associar “evento” com “experiência”. E não dá pra colocar um game em seu estande... e dizer que aquilo é “experiência para o público”. Não, não é.

O fim da era contemplativa

No passado, houve um tempo em que o Salão do Automóvel de São Paulo continha um ritual sagrado aos apaixonados por carros. Você atravessava os portões do Anhembi — e mais tarde do São Paulo Expo —, enfrentava filas quilométricas e caminhava quilômetros sobre carpetes felpudos apenas para, veja só, olhar carros.

O Salão era uma vitrine de vidro. Linda, imponente, bilionária, mas intocável. E é justamente aqui que reside o declínio desse modelo de negócio e a explicação para o fenômeno dos eventos de experiência, como o SEMA Show, em Las Vegas, e o Festival Interlagos.

A indústria mudou, o consumidor mudou e, acima de tudo, a nossa relação com o objeto de desejo sobre rodas sofreu uma metamorfose irreversível. Hoje, ninguém mais quer ser apenas um espectador. O público cansou de ser figurante na festa das marcas; ele quer ser o protagonista.

O peso dos milhões e a falta de retorno

Para entendermos o sucesso dos novos formatos, precisamos olhar para as feridas abertas dos antigos salões. O modelo tradicional ruiu sob o peso do seu próprio custo. Montar um estande de 2 mil metros quadrados, com telões de LED de última geração custava às montadoras dezenas de milhões de reais.

As marcas perceberam que gastar fortunas para que o público visse um carro que estaria na concessionária na semana seguinte era um contrassenso. Pior: era um modelo passivo. O cliente via, achava bonito e ia embora. Não havia o clique emocional que só a experiência sensorial proporciona.

Festival Interlagos: A mudança da alma

É nesse cenário de saturação que surge o Festival Interlagos. A proposta é radicalmente diferente, bem mais acessível aos bolsos das fabricantes e ajustada para aproximar público e marca. Ao transferir o palco para o Autódromo, a organização não mudou apenas o CEP; mudou a sua alma.

A diferença fundamental entre um salão estático e um festival é o dinamismo. No Festival Interlagos, o carro deixa de ser uma escultura de metal sob luzes artificiais para se tornar o que ele realmente é: uma máquina de sensações, onde o visitante assume o controle.

Ali, o visitante não quer saber se o plástico do painel é soft touch apenas olhando pela janela. Ele quer sentir a entrega de torque imediata de um motor elétrico na subida do Café. Ele quer ouvir o ronco do escape e sentir a suspensão trabalhando no Mergulho.

A celebração da cultura automotiva

O próprio Salão do Automóvel que ocorreu em 2025, de volta ao Anhembi, acusou o golpe e tratou de se revitalizar. Fez lá sua pista de test-drive, dentro do próprio pavilhão. Assim como normatizou os estandes em tamanhos únicos, com o intuito de racionalizar os custos.

No formato de festival, a proximidade é a regra. Ver supercarros passando a poucos metros de distância, sentindo o deslocamento de ar e o cheiro de borracha queimada, humaniza a máquina. O evento deixa de ser uma exposição de produtos e passa a ser uma celebração.

O Festival Interlagos entendeu que o conceito de “experiência” não se resume à pilotagem. Lá você encontra música, gastronomia, simuladores e shows de drifting. É um ambiente onde o dono de um carro popular e o colecionador dividem o mesmo espaço. O Salão era institucional; o Festival é social.

Do lead frio à venda emocional

O “lead” (o potencial cliente) gerado em um evento de experiência é muito mais quente. Quem sai de um teste em Interlagos está a um passo da compra. Ele não precisa mais imaginar como o carro anda; ele sabe. A experiência na pista fideliza o consumidor de forma definitiva.

Como jornalista que acompanhou décadas de lançamentos, a conclusão é inevitável: o cheiro de pneu é muito mais sedutor que o do carpete. O Salão do Automóvel me deu memórias incríveis e foi o palco de muitos dos meus sonhos de infância. Não perco um desde os anos 80.

Mas o Festival Interlagos me fornece a adrenalina do presente. Foi no Festival, em 2024, que pilotei uma moto em um autódromo pela primeira vez, uma Triumph Trident 660. Não esqueceria jamais do primeiro pêndulo no Pinheirinho.

Mas e na China?

Lá tudo é diferente, amigo. Pra começar, estamos falando de um país com cerca de 130 fabricantes de automóveis — acho que isso não caberia em autódromo nenhum. É bem verdade que a esmagadora maioria atua regionalmente, utilizando o salão como principal palco de expansão.

Além de jornalistas, um evento como esse é frequentado por empresários que atuam no ramo de concessionários. Tudo o que um pequeno fabricante quer é ampliar a rede autorizada e tentar cobertura nacional, motivo pelo qual eles invadem essas mostras com vontade.


O que você pensa sobre isso?

Lembro de uma sensação incômoda: eu entrava em pavilhões chineses e não conhecia nenhum dos 50 carros daquele edifício. Não só eu não identificava os carros... como nem sequer sabia os nomes das fabricantes, visto que poucas traduziam os nomes do mandarim.

Conto tudo na volta. Tô pensando melhor aqui: será que ninguém tá construindo um autódromo gigante na China pra acomodar um Festival?

Envie seu flagra! flagra@motor1.com