Audi RS2 Avant: a perua que acelerava mais que o McLaren F1
Projeto conjunto com a Porsche rompeu padrões ao juntar universos opostos
Há modelos que inauguram uma linhagem — e outros que viram padrões do avesso. A Audi RS2 Avant pertence ao segundo grupo. Mais do que abrir caminho para a família RS, uniu dois universos até então opostos: o das peruas familiares e o dos supercarros. Uma ideia que, à época, parecia absurda.
Para entender sua importância, é preciso voltar ao início dos anos 1990. Naquele momento, a Audi buscava se reinventar, preparando uma nova nomenclatura que daria origem aos modelos A4, A6 e A8 e tentando se reposicionar como fabricante premium.
Ainda carregava uma imagem de empresa excessivamente racional, distante da carga emocional associada às rivais BMW e Mercedes-Benz. A tração integral quattro já havia feito história nos insanos ralis do Grupo B, mas essa reputação não se traduzia totalmente em desejo. Faltava à Audi um símbolo: um modelo capaz de unir tecnologia, desempenho e paixão.
A base técnica já existia. O Audi S2 (1990–1995), herdeiro direto do legado do Audi Quattro original, combinava motor cinco-cilindros turbo e tração integral, com carrocerias sedã, cupê e station wagon (a S2 Avant). Embora fortes, com seus motores de 220 e 230 cv, esses carros não foram chocantes o suficiente para transformar a percepção da marca.
Audi S2 Avant - a esportiva mais mansa que a RS2
Liderada pelo arrojado Ferdinand Piëch, neto de Ferdinand Porsche e engenheiro por trás dos Porsche 917 e dos Audi Quattro, a marca das quatro argolas buscava algo extremo, quase irracional: a perua mais rápida do mundo. O problema é que, naquele momento, a companhia não tinha recursos nem estrutura para desenvolver o projeto sozinha.
A solução viria da Porsche, que atravessava uma fase financeiramente delicada (antes do sucesso do Boxster) e tinha capacidade ociosa em sua fábrica de Zuffenhausen, a mesma de onde saía o envenenado Mercedes-Benz 500 E entre 1991 e 1994. (Sim, é isso mesmo: houve um Mercedes feito na Porsche.)
A Audi 80 Avant comum
Fusão técnica
A colaboração entre Porsche e Audi não era inédita, mas, no caso da RS2, deixou de ser um simples contrato industrial para se tornar uma fusão técnica. A base escolhida foi a Audi 80 Avant geração B4 (1991–1995), que já dera origem à S2 Avant, mas, a partir daí, a Porsche assumiu papel central tanto no desenvolvimento quanto na montagem final. Não se tratava de um Audi com ajustes pontuais; era, em muitos aspectos, um Audi desenvolvido em Weissach.
A sigla RS vinha de RennSport, literalmente “esporte de corrida”. Era a primeira vez que a Audi usava essas duas letras.
O motor permaneceu fiel à tradição da Audi: cinco cilindros em linha, DOHC, 20 válvulas, 2,2 litros, com turbo. Foi, contudo, profundamente retrabalhado. A Porsche instalou um turbocompressor KKK de maiores dimensões, revisou o intercooler, adotou injetores de maior vazão, recalibrou a central eletrônica, mudou o duto de admissão, trocou os comandos de válvulas e adotou um escape mais livre, de onde saía um ronco encorpado. Isso se traduzia em 315 cv e 41,8 kgfm de torque, números impressionantes para 1994.
Acoplado a um câmbio manual de seis marchas, com engrenagens mais parrudas (e pedal de embreagem pesadíssimo), o conjunto fez da RS2 a perua mais rápida do mundo: acelerava de 0 a 100 km/h na casa dos 5 segundos e superava os 260 km/h de velocidade máxima, números dignos de esportivos de elite na época.
Bancos concha e instrumentos de fundo branco
Ainda mais marcante do que os números era a forma como a superwagon entregava esse desempenho: turbolag até 3.000 rpm, seguido por uma entrada de pressão abrupta e violenta (até 1,4 bar). Era essa “patada” que caracterizava a condução da RS2.
Graças à tração integral quattro, com diferencial central Torsen e diferencial traseiro autoblocante, além de divisão de torque 50/50 variável automaticamente entre 75/25 e 25/75, essa força era transferida ao solo com eficiência em qualquer condição, o que tornava a RS2 absurdamente rápida no mundo real.
Rodas e freios de Porsche
Em acelerações curtas, a RS2 conseguia surpreender carros teoricamente muito superiores, chegando a ser mais rápida que o McLaren F1 na arrancada de 0 a 30 mph (0 a 48 km/h em 1,5 s, no teste da revista britânica Autocar), um dado que rapidamente alimentou sua mitologia.
As rodas Cup 1, emprestadas pelo Porsche 964 Turbo, eram calçadas com pneus 245/40 ZR17 da Dunlop. A suspensão era cerca de 40 mm mais baixa que a de um Audi 80 padrão e aproximadamente 15 a 20 mm mais baixa que a da S2 Avant. Enquanto a S2 utilizava componentes Boge/Sachs, a RS2 adotava amortecedores Bilstein com mais carga, para controle de carroceria em altas velocidades. Além disso, havia molas mais rígidas e barras estabilizadoras mais grossas.
O nome Porsche no escudinho da RS2
A Porsche alterou a postura do carro não apenas pela estética, mas para ampliar a base de apoio. A bitola dianteira era 3 mm mais larga que na S2, enquanto a traseira era 33 mm mais larga, graças a novos cubos e ao offset específico das rodas Cup 1.
Os freios também foram completamente refeitos pela Porsche. Na dianteira, a RS2 adotava discos ventilados de 304 mm de diâmetro, com pinças Brembo de quatro pistões, vindas do modelo 968.
Audi RS2
Atrás, o conjunto incluía discos ventilados de 299 mm, também com pinças Brembo de quatro pistões. Para comparação, os S2 “comuns” tinham discos de 276 mm na frente e 245 mm atrás. O ABS também foi recalibrado.
A RS2 combinava essas alterações para alcançar comportamento dinâmico e capacidade de frenagem comparáveis aos de esportivos de alto nível. Em condições de baixa aderência, a perua da Audi deixava para trás quase todas as Ferrari da época, como a 348 e a F355.
O motor cinco-em-linha de 315 cv
O interior reforçava a proposta esportiva com bancos concha Recaro (disponíveis em couro integral ou combinação de couro e veludo) e acabamentos que podiam variar entre madeira e fibra de carbono. Havia ainda um porta-malas de 370 litros (VDA) e, se fosse necessário levar mais bagagem, um rack no teto. Em ordem de marcha, a perua pesava 1,6 tonelada.
O para-choque dianteiro com três grandes aberturas, para resfriar o intercooler e os freios, lembrava o do 993 Carrera 4S. Até as setas frontais dos dois modelos eram as mesmas. Uma extensão plástica unindo as lanternas traseiras também remetia aos Porsche.
Os retrovisores aerodinâmicos vinham dos Porsche 964 Turbo e 993. As pinças de freio ostentavam orgulhosamente o nome Porsche, que também aparecia nas plaquetas RS2 da grade e da tampa traseira.
E tem mais: os chassis das RS2 começavam com WAC (código da ARGE Audi/Porsche), em vez de WAU (da Audi isoladamente). Esse ARGE vinha de Arbeitsgemeinschaft, ou “grupo de trabalho”, em alemão.
Tração integral Quattro
Tanto o Porsche 993 quanto a Audi RS2 Avant estrearam no mesmo evento: o Salão do Automóvel de Frankfurt (IAA), na Alemanha, em setembro de 1993. A perua vitaminada causou comoção imediata pelo inusitado da proposta e bastaram os primeiros testes para que o ceticismo desse lugar à admiração. A RS2 rompia todos os padrões de “carro familiar”.
A cor Azul Nogaro (código LZ5M) tornou-se sua assinatura visual. O nome vinha do circuito do vilarejo de Nogaro (Circuit Paul Armagnac), no sudoeste da França. Era uma homenagem ao alemão Frank Biela, que dominou o Campeonato Francês de Superturismo de 1993 ao volante de um Audi 80 quattro, conquistando duas vitórias importantes justamente nessa pista.
Porsche 911 Carrera S - irmão da RS2
Teoricamente, a RS2 tinha concorrentes. A BMW M5 Touring E34 (1992–1996) oferecia desempenho refinado com motor aspirado, enquanto a Volvo 850 T-5R (1994–1995) era um tijolo voador que ajudou a difundir a ideia de peruas rápidas. Mas nenhuma combinava, ao mesmo tempo, brutalidade de entrega, tração integral permanente e visual marcante.
A produção oficial total da RS2 no complexo da Porsche em Zuffenhausen foi de 2.891 unidades (embora algumas fontes citem 2.908, incluindo protótipos e pré-série), entre março de 1994 e julho de 1995. Foi uma vida curta, mas de impacto duradouro.
Azul Nogaro - a cor mais emblemática da RS2
Sua sucessora direta viria apenas em 2000: a Audi RS4 Avant (B5), que refinou a fórmula com um V6 biturbo desenvolvido com a Cosworth e uma proposta mais madura.
Dos Audi hoje em linha, a descendente da RS2 seria a Audi RS6 Avant, muito mais potente (630 cv), rápida e sofisticada. Mas uma equivalente, no sentido mais profundo, já não existe. Porque a RS2 não foi apenas uma perua rápida; foi inesperada. Representou o momento em que a Audi deixou de ser apenas uma fabricante racional para assumir um papel emocional.
Audi RS2
Conexão Brasil
Tudo aconteceu muito rápido: em novembro de 1993, Ayrton Senna (já tricampeão de Fórmula 1) e seu irmão Leonardo foram a Ingolstadt fechar um contrato de comercialização dos carros da Audi no Brasil. Por meio da Senna Import, o piloto pretendia vender uma centena de carros por mês, dos modelos 80 e 100, além de seus derivados esportivos S2 e S4.
O lançamento, em 29 de março de 1994, foi puro suco dos anos 1990: organizada por José Victor Oliva, a festa para 2 mil convidados aconteceu em um hangar do Aeroporto de Congonhas. Em determinado momento, abriu-se a porta de um cargueiro da Varig e o apresentador Jô Soares surgiu dirigindo um Audi 80 Cabriolet para encontrar-se com Senna no palco.
Ayrton Senna morreria exatos 33 dias depois, mas a semente da Audi já estava plantada no Brasil. A RS2 foi apresentada no Salão de São Paulo, em outubro daquele ano.
O Brasil foi um dos países que mais importaram a RS2: nada menos que 82 unidades foram trazidas pela Senna Import. Destas, porém, cerca de 20 vieram “só para passear”, pois acabaram retornando à Europa para suprir a falta de exemplares 0 km no mercado local.
Audi RS2 Avant - frente (foto - CARDE)
Era uma perua cara. Por aqui, custava praticamente o mesmo que um BMW M3 da época. No auge da carreira, o jogador Romário desfilava em uma RS2 pela Barra da Tijuca. Com suspensão duríssima e pneus de perfil 40, não era dos carros mais confortáveis para as ruas brasileiras.
Estima-se que cerca de 65% a 75% da produção global da RS2 ainda exista, reflexo do alto valor que o modelo vem alcançando (hoje, exemplares impecáveis chegam a custar € 100 mil). Esse movimento foi impulsionado, em parte, pela forte demanda norte-americana: como a superwagon da Audi não foi homologada para os EUA na década de 1990, só recentemente teve suas vendas liberadas por lá, já como carro de coleção.
Azul Nogaro - Audi RS2 e Audi RS 4
Tamanha valorização também acontece no Brasil. Há 15 anos, era possível encontrar boas RS2 anunciadas por valores em torno de R$ 70 mil. Na semana passada, uma perua dessas em ótimo estado foi arrematada por R$ 660 mil na Venda de Outono do museu Carde, em Campos do Jordão (SP).
Segundo dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), hoje ainda há 44 exemplares da RS2 registrados no Brasil.
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