Fiat Palio completa 30 anos: o carro mundial que nasceu em Betim
Lançado em 1996, o Projeto 178 transformou o Palio em um dos carros mais importantes da história da Fiat e um dos mais vendidos do Brasil
Em meados dos anos 90, o valente Uno, lançado em 1984, começava a envelhecer frente à concorrência. Chegavam novidades como o Chevrolet Corsa, a segunda geração do VW Gol e o Ford Fiesta — à época importado da Espanha. O trio elevava o nível dos populares, e a "botinha ortopédica" ia ficando para trás.
Desde o início da década, a Fiat já pensava em um novo compacto. Em 1992 foi dada a partida para o Projeto 178, que previa um carro acessível, moderno e robusto. O objetivo era vendê-lo em países emergentes, do Brasil à China, enquanto a Itália faria um automóvel mais complexo e caro: o Punto.
O desenvolvimento do Projeto 178 ficou nas mãos do Instituto I.De.A, de Turim, e do Centro de Estilo da Fiat na Itália. A plataforma vinha do Uno italiano, com suspensão traseira por eixo de torção. Para adoçar a boca do público, a Fiat mostrou, no fim de 1995, as primeiras imagens do projeto. O nome Palio (“páreo” ou “estandarte” em italiano) vinha de uma corrida de cavalos disputada na Itália desde 1656, na cidade de Siena.
A estreia mundial foi no Brasil, em 15 de abril de 1996 — bem a tempo de a Fiat comemorar os 20 anos da inauguração de sua fábrica no país. Em uma megafesta na cidade histórica de Ouro Preto (MG), o Palio foi apresentado em versões de duas ou quatro portas. Até então, o único nacional a ter essas opções desde o lançamento havia sido o Ford Escort, em 1983.
Com a recente criação do Plano Real, o brasileiro finalmente respirava aliviado, com a inflação controlada — e já podia planejar melhor a troca de carro. O novato Palio era um hatch compacto de linhas arredondadas. A suspensão traseira por eixo de torção era simples e calibrada ao nosso gosto. Na prática, era um carrinho gostoso de dirigir e que respeitava a coluna do motorista em pavimentos ruins. Fez sucesso imediato.
Eram três opções de motor: 1,5 litro (de 76 cv), feito no Brasil, e o novo 1.6 16v (de 106 cv), importado da Itália. O 1.0 Fiasa (de 61 cv) chegou em julho, enquadrando-se na fervilhante categoria dos “carros populares”. E, desde o princípio, já estavam previstas também versões com motor a diesel, exportadas para Argentina, Chile, Uruguai e Europa.
O Palio estava longe de ser um bólido, mas tinha desempenho convincente. O câmbio era manual de cinco marchas, com alavanca longa e engates macios. A distância entre-eixos de 2,36 m, idêntica à do Uno, garantia bom espaço para quatro pessoas. O acabamento era correto e os elementos do painel, seguindo a carroceria, eram arredondados. A versão 16v, topo de linha, trazia bossas como direção assistida e conta-giros.
Outro destaque do primeiro Palio eram os itens de segurança, raros nos populares da época. O modelo tinha barras nas portas para amenizar os efeitos de uma colisão e podia ser equipado com ABS e airbag duplo — em 1996!
E havia as incríveis cores de lançamento, com destaque para o Laranja Vitória, o Verde Campo e o Azul Allegro. Eram tons vibrantes que se destacavam no trânsito, num tempo em que o brasileiro estava entrando na onda do preto ou prata.
Versão sul-africana, com direção à direita
Pelo mundo
O termo “carro mundial” apregoado pela Fiat fazia sentido, ainda que a família Palio tenha sido produzida apenas em países em desenvolvimento (ou menos do que isso): Brasil, Argentina, Turquia, Polônia, China, Índia, Marrocos, África do Sul, Venezuela, Rússia e Vietnã. Na Coreia do Norte, o Siena se chamava Hwiparam (“Assobio”) e era produzido pela Pyeonghwa Motors, uma joint-venture entre o estado e a igreja do Reverendo Moon. E havia as exportações:
"Tirando Estados Unidos e Canadá, os derivados da linha Palio eram vendidos no mundo todo, com o mínimo possível de modificações. Iam para a Europa, para a África… Um carro que era todo reforçado para as estradas da Turquia, Rússia, Polônia e Brasil nem precisava ser tropicalizado para rodar na África. O 178 atendeu perfeitamente ao propósito global porque foi todo feito com essa concepção daqui", lembra Robson Cotta, que foi gerente no desenvolvimento dos carros.
Palio G2 turco
Com a padronização, a Fiat também buscava ter os mesmos fornecedores para as fábricas dos diferentes países.
"Nossa equipe do Brasil ficou responsável por expandir o 178 pelo mundo. Visitei diversos locais de fabricação exatamente para testar os carros, verificar como é que eles eram, se tinham a mesma performance que aqui. E houve até colegas que ficaram de vez nos outros países", conta o engenheiro.
Weekend, Siena e Strada
Robusto e bom de guiar, o hatch feito em Betim (MG) se aventurou até nas pistas. Isso ocorreu em 1997, com a criação da Fórmula Palio. O campeonato monomarca disputado em autódromos do país reunia modelos praticamente originais.
Famila 178 reunida - ainda faltava a Strada
Em abril de 1997 o Palio começou a dar frutos. Primeiro veio a Palio Weekend, perua com entre-eixos aumentado em 6 cm, 460 litros de porta-malas e suspensão traseira com braços arrastados. Em agosto chegou o Siena, um três-volumes com apelo econômico e 500 litros de porta-malas. A Strada viria em 1998, dando gás ao segmento de picapes compactas.
"Desde o começo, o Projeto 178 foi pensado para ser uma família. E isso era parte da estratégia global: fabricar o Palio aqui e o Siena na Argentina, e intercambiar produtos. Isso alicerçou uma comunização de produtos da Fiat, antes muito centrada na Itália", diz Robson.
Strada na Alemanha
A Fiat também apostou em diversas séries especiais: MTV, Century, 500 Anos, Five etc. Uma das versões mais curiosas foi a Citymatic, com câmbio manual mas sem pedal de embreagem. Embora não custasse muito (cerca de R$ 800 extras), dava trancos e não caiu nas graças do público. Outra variação da família foram as versões Adventure (1999), que vestiram a Weekend e a Strada como modelos fora de estrada. Toda a concorrência copiou os “aventureiros”.
Chinesinho, Pitbull e BBB
Em 2000, a Fiat investiu alto numa reestilização. O trabalho foi assinado pelo lendário designer Giorgetto Giugiaro. Assim, o Palio ganhava linhas mais retas e melhorias até no ar-condicionado. Apesar de não ser uma segunda geração pra valer, esse modelo é chamado por muitos de “G2”, também conhecido como “Palio Chinesinho”.
A partir do modelo 2003, graças a um acordo global com a General Motors, o motor Família I de 1,8 litro e oito válvulas (essencialmente o mesmo usado na Chevrolet Spin até hoje) foi adotado por modelos da Fiat, assumindo o lugar do 1.6 16v importado.
Palio G3 18R e C-47
O visual do G2, porém, durou pouco: no final de 2003, o carro passou por mais um retoque, também assinado por Giugiaro. Faróis e lanternas cresceram, frente e traseira ficaram mais abauladas e o painel mudou. Era o “G3”, também apelidado de “Palio Pitbull”.
Em 2005 foi a vez de uma versão esportiva 1.8 R. Tinha rodas de 14 polegadas, suspensão 1,5 cm mais baixa, amortecedores recalibrados e uma chamativa cor amarela — isso além de grafismos cheios de bossa nas laterais. O motor era o GM 1.8 com 115 cv. Era vistoso e até arisco, mas não chegava a impressionar pelo desempenho.
Ainda houve tempo para uma quarta fase (o “G4”, vulgo “BBB”), lançada em fevereiro de 2007, já como linha 2008. Desta vez, o cirurgião plástico não foi Giugiaro, mas Peter Fassbender, que comandava o Centro de Estilo da Fiat no Brasil.
O desenho marcou uma ruptura com o estilo fluido de Giugiaro. A Fiat optou por um visual mais agressivo e retilíneo, com faróis de parábola simples (em vez dos canhões duplos do G3) e grade do radiador verticalizada. Já as lanternas traseiras, horizontais e estreitas, tinham um quê de Daihatsu Charade.
Nova geração: outro carro
Até então o Palio original de 1996 havia recebido várias atualizações, mas ainda se baseava na arquitetura do Uno europeu de 1983. Uma nova geração de fato só surgiu no final de 2011.
Conhecido internamente como Projeto 326 e chamado de “Novo Palio”, o modelo representava uma ruptura maior. Não era mais um carro mundial: teve produção apenas no Brasil e na Argentina. Também abandonou o conceito de grande família de modelos, ficando restrito ao hatch e ao sedã Grand Siena.
Embora utilizasse a plataforma do Novo Uno (Projeto 327), a base foi ampliada e reforçada, criando um carro mais espaçoso, com entre-eixos 6 cm maior e estrutura mais rígida. Na prática, oferecia melhor comportamento dinâmico, mais conforto e maior refinamento.
A suspensão seguia a receita típica da Fiat no Brasil: macia, mas robusta para enfrentar ruas e estradas irregulares. Garantia boa absorção de impactos e conforto acima da média da categoria. O isolamento acústico também evoluiu em relação ao Palio anterior.
Palio "velho" não saiu de cena
Aí, um detalhe curioso: o Palio 178 G4 deixou de ser produzido em 2011 para dar lugar à nova geração 326. Já o seu antecessor, o 178 G3 — o “Pitbull” de Giugiaro — ainda resistiu bravamente em produção até o segundo semestre de 2017, na forma dos Palio Economy, Fire e Fire Way, queridinhos de frotistas e empresas pela robustez e baixo custo de manutenção.
Essa convivência de gerações mostrou-se uma estratégia eficaz, permitindo à Fiat competir em diferentes faixas de preço dentro do segmento de compactos. Juntos, o velho e o novo Palio tiveram um momento histórico em 2014, fechando o ano como o carro mais vendido do Brasil e interrompendo a hegemonia de 27 anos do Volkswagen Gol no topo do ranking.
A gama de versões refletia essa diversidade. A Attractive, com motores Fire Evo 1.0 (75 cv) ou 1.4 (88 cv), era a mais vendida entre os Palio 326. A Essence era mais equipada e trazia o motor 1.6 16v E.torQ, de origem Tritec (antiga joint venture entre Chrysler e BMW no Paraná). Já a Sporting apostava em visual mais agressivo, rodas maiores e interior com detalhes vermelhos. Seu motor, porém, era o mesmo 1.6 16v E.torQ, de 115/117 cv.
As transmissões incluíam o câmbio manual de cinco marchas e o Dualogic, automatizado de embreagem simples. Embora prometesse conforto de automático a menor custo, recebeu críticas pelo funcionamento pouco refinado.
Apesar do bom começo, o Palio de segunda geração enfrentou concorrência crescente. A partir de 2012, hatches compactos como Hyundai HB20 e Chevrolet Onix trouxeram novos padrões de conectividade, multimídia e direção elétrica. Nesse cenário, o Palio começou a revelar limitações tecnológicas de sua arquitetura.
O Palio 178 foi finalmente aposentado em agosto de 2017, após 21 anos de produção ininterrupta. Já o “sucessor” 326 — que nunca o substituiu plenamente — saiu de linha em novembro do mesmo ano, apenas três meses depois. A essa altura, o Argo já estava no mercado, enquanto a base da linha era ocupada por Mobi e Uno (327).
O Fiat Palio somou cerca de 3,2 milhões de unidades produzidas e vendidas no Brasil, considerando apenas as carrocerias hatch. Se incluirmos Siena, Weekend e Strada. o volume supera com folga essa marca.
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