Ela parece uma clássica dos anos 1970, mas anda como uma esportiva atual

Motos modernas com design retrô não são exatamente uma novidade. Há tempos a Triumph vende sua clássica linha Bonneville, enquanto a Ducati reviveu a Scrambler e a Royal Enfield tem um portfólio quase todo composto por modelos com estilo antigo. O que diferencia, então, a Z900 RS (Retrô Sport) da Kawasaki nesta onda nostálgica? Bem, como o nome diz, ela deriva da Z900, a naked esportiva intermediária da marca japonesa. 

Avaliação: Kawasaki Z900 RS (BR)

Antes de contar como é pilotá-la, precisamos falar um pouco de história. A RS nasceu como uma releitura da Kawasaki Z1, que nos anos 1970 era rival da icônica Honda CB750 Four. Daí o motor com aletas (para simular refrigeração a ar), o desenho do tanque em formato de gota, o farol redondo, o painel com dois mostradores redondos e os retrovisores também redondos, que estão lá para fazer ligação com o passado. Até mesmo a cor Candytone Brown foi herdada da Z1. 

Os mais atentos, porém, vão notar alguns indícios de moto esportiva, como a rabeta curta, os grandes discos de freio, os pneus largos e a suspensão traseira monoamortecida. Mas a prova cabal de que estamos diante de uma clássica invocada vem assim que damos a partida no motorzão de 4 cilindros e 948 cc, com seu ronco nervoso. O motor é o mesmo da Z900 tradicional, com a diferença de que a Kawasaki alterou as curvas de torque e potência para uma entrega de força mais linear, com melhor comportamento em baixas rotações. O resultado é de 109 cv a 8.500 rpm e 9,7 kgfm a 6.500 rpm, contra 125 cv a 9.500 rpm e 10,1 kgfm a 7.700 rpm da Z900 - repare que, embora menores, os números surgem numa rotação mais baixa. 

Kawasaki Z900 RS
Avaliação: Kawasaki Z900 RS (BR)

Ao montar na RS, chama atenção o tanque volumoso (17 litros) que faz com que a moto fique um pouco "gordinha" entre as pernas. A posição de pilotagem deixa o corpo levemente à frente, mas sem ter as pedaleiras recuadas, o que permite rodar muitos quilômetros sem reclamar de dor nas costas. Já o banco tem formato confortável para o piloto, mas a espuma é um tanto rígida. Garupa? Apenas em trajetos curtos. O banco é curto, falta uma alça para segurar e a suspensão bate seca nos buracos quando a moto está com dois ocupantes. 

Boa surpresa da Z900 RS foi sua tranquilidade no trânsito urbano. Ainda que não seja estreita (são 825 mm de largura), ela passa bem no corredor entre os carros e o motor 4 cilindros não esquenta muito - apenas liga a ventoinha quando o engarrafamento fica muito intenso. O peso de 216 kg parece bem menor em movimento e a baixa altura do assento (800 mm) permite aos pés chegarem facilmente ao solo, mesmo que você tenha 1,69 m como nosso colaborador Eduardo Silveira. A embreagem assistida é bastante leve e contribui para o conforto diário, em conjunto com um câmbio de engates tão suaves que entra na lista dos melhores que já testei da Kawasaki. O senão fica por conta da suspensão, que não gosta muito do nosso asfalto esburacado e repassa, sem muito filtro, os impactos para o piloto. 

Embora não seja uma moto ideal para o dia a dia, a RS pode ser usada na cidade sem dramas. O guidão tem bom grau de esterço para uma naked e o motor cheio de torque pode rodar em baixa rotação sem qualquer tipo de engasgo - dá até para sair em segunda marcha que ele não reclama. Ponto a rever são os retrovisores. Apesar de estilosos, eles possuem o campo de visão muito reduzido para o trânsito atual, muito mais movimentado que o dos anos 1970.

Avaliação: Kawasaki Z900 RS (BR)
Avaliação: Kawasaki Z900 RS (BR)

Diferentemente da Z900 comum, a RS tem painel analógico. Confesso que senti falta de uma velocímetro digital para ver a velocidade mais rapidamente, mas entre os mostradores há um visor com diversas informações do computador de bordo, incluindo consumo médio e autonomia restante. Também há itens típicos de motos modernas, como o controle de tração (com dois níveis), o farol de LED (com ótima iluminação) e a lanterna também de LED, além da embreagem deslizante (que evita travamento da roda em reduções bruscas).

Na estrada, uma característica das Kawasaki fica clara rapidamente: a relação curta, que faz com que o motor esteja sempre cheio e pronto para responder. Em compensação, às vezes procurei uma "sétima" marcha para fazer a moto viajar mais sossegada. Não que o ruído ou a vibração do 4-cilindros incomodem, pelo contrário. Ele funciona "liso" e sobe de rotação com vontade, emitindo um delicioso ronco de aspiração que faz a gente ficar em dúvida se gira a manete para acelerar ou apenas para ouvir a melodia. Você pode viajar nos 120 km/h legais com consumo em torno dos 20 km/l, mas é difícil não se empolgar... Durante nossa avaliação, a média de consumo ficou em 18 km/l (andando sem se preocupar muito com economia), o que garante autonomia de aproximados 300 km.  

Quando falo em empolgação, é porque debaixo desta Z1 dos anos 2020 está uma autêntica Z900 - ainda que amansada. Isso significa que a RS tem saídas fortes e as trocas de marcha são seguidas de um empurrão quando se mantém o acelerador aberto. A aceleração de 0 a 100 km/h se dá em menos de 4 segundos e a máxima chega aos 230 km/h. Para acompanhar, a suspensão firme e os pneus largos (120-70 na frente e 180/55 atrás) dão confiança para "encher a mão", embora a falta de proteção aerodinâmica seja um empecilho para manter o ritmo forte por muito tempo. A RS só começa a balançar em velocidades mais elevadas, lembrando que ela não é uma supernaked. Mesmo assim, a tocada em ritmo esportivo é facilitada pela boa agilidade nas mudanças de direção, pela firmeza do chassi nas curvas e pela pegada forte dos freios (dois discos de 300 mm na frente e disco simples atrás), com ABS de série. Nenhuma clássica à venda no Brasil oferece esse nível de esportividade. 

Avaliação: Kawasaki Z900 RS (BR)
Avaliação: Kawasaki Z900 RS (BR)

Se a mistura de estilo retrô com tocada esportiva faz sua cabeça, saiba que o maior "porém" da RS está no preço. Enquanto a Z900 normal sai por R$ 41.990, a Z900 RS eleva a conta para R$ 48.990 - um salto de R$ 7 mil que não se justifica pela parte técnica. Para quem aceitar bancar a diferença pelo estilo retrô, a boa notícia é que a RS já pertence à linha 2019 da Kawasaki, que chega com dois anos de garantia, o dobro do que a marca oferecia até então. 

Fotos: Autor/Motor1.com

Kawasaki Z900 RS

MOTOR 4 cilindros em linha, 16 válvulas, 948 cc, duplo comando, refrigeração líquida, gasolina
POTÊNCIA/TORQUE 109 cv a 8.500 rpm / 9,7 kgfm a 6.500 rpm
TRANSMISSÃO 6 marchas; transmissão por corrente
SUSPENSÃO Bengalas convencionais e ajustáveis na dianteira (120 mm de curso) e amortecedor único na traseira com ajustes de pré-carga e retorno (140 mm de curso)
RODAS E PNEUS Aros 17" com pneu 120/70 R17 na dianteira e 180/55 R17 na traseira 
FREIOS Disco duplo de 300 mm na dianteira e disco simples de 250 mm na traseira, com ABS
PESO 216 kg (ordem de marcha)
DIMENSÕES E CAPACIDADES Comprimento 2.100 mm, largura 865 mm, altura 1.150 mm, altura do assento 800 mm, entre-eixos 1.470 mm; tanque 17 litros
QUADRO Treliça de aço
PREÇO R$ 48.990

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