Teste especial: encaramos um rali por dentro com a 1ª Mitsubishi Triton Savana Sertões
Foram mais de 600 km, muita poeira e 24 km dentro de uma especial depois da passagem dos competidores
Às vésperas da 34ª edição do Rally dos Sertões, realizada entre os dias 22 e 30 de agosto, a Mitsubishi apresentou uma versão da Triton que dificilmente poderia ter nome mais apropriado: Savana Sertões. Pouco antes do lançamento oficial, veio o convite para conhecer o carro. Até aí, nada muito diferente da rotina.
Perguntei onde seria. A resposta veio em forma de outra pergunta: “Que tal no próprio Rally? Na primeira especial?” Como gosto de desafios, aceitei sem imaginar exatamente o que encontraria pela frente.
A proposta era diferente de um teste convencional. A ideia era conhecer a Triton justamente no ambiente que inspirou a série especial e, de quebra, acompanhar por dentro uma parte do maior rali das Américas que normalmente fica longe das câmeras. Não participaríamos da competição, mas entraríamos em uma das especiais pouco depois da passagem dos competidores.
Três estados e quase 4.000 km
O tamanho do Sertões ajuda a colocar tudo em perspectiva. Em 2026, o roteiro tinha 3.984 km divididos em oito etapas, passando por Goiás, Bahia e Tocantins antes de retornar ao ponto de partida. Para carros, motos e UTVs, 2.628 km seriam percorridos contra o relógio.
Peguei um avião para Goiânia, capital de Goiás e distante cerca de 930 km de São Paulo por estrada. A cidade seria tanto o ponto de partida quanto o de chegada do rali e concentrava boa parte da estrutura da organização e das equipes.
Foi ali também que acompanhei a Super Prime. Em uma pista construída pela organização e que se cruza em X, os mais rápidos de cada categoria se enfrentam em disputas no estilo mata-mata, valendo o troféu e a possibilidade de escolher uma posição melhor para a largada.
Confesso que foi emocionante. Houve tombos de moto, dois capotamentos e disputas apertadas. Foi uma boa introdução ao ambiente do Sertões e, de certa forma, começou a me preparar para o que viria no dia seguinte.
A primeira Triton Savana Sertões
Foi em Goiânia que recebi a picape que me acompanharia na viagem. O hodômetro mostrava pouco mais de 100 km e, naquele momento, aquela era a primeira e única Triton Savana Sertões produzida. Baita responsabilidade para um carro praticamente zero-quilômetro que poucas horas depois seguiria para dentro do rali.
Baseada na também limitada Triton Savana, a série especial custa R$ 339.990 e leva a associação com o Sertões além dos grafismos. A carroceria tem a exclusiva cor Cinza Concrete, combinada a detalhes em laranja, cor oficial da prova, e acabamentos em preto fosco e brilhante.
Para o lugar em que estávamos, porém, eram os equipamentos funcionais que mais interessavam. A japonesa a equipou com skid plates dianteiro e traseiro revestidos com X-Liner, proteções laterais Rock Slider, snorkel, bagageiro para até 50 kg, pá e pranchas de desencalhe. As rodas de 18", por sua vez, usam pneus Goodyear Wrangler Duratrac RT, mais cravudos e desenvolvidos para barro e pedras.
Sob o capô não há mudanças em relação à Savana. O motor 2.4 biturbo diesel entrega 205 cv e 47,9 kgfm, com torque máximo disponível a partir de 1.500 rpm, e trabalha com câmbio automático de seis marchas. A tração Super Select 4WD-II permite rodar em 4H com as quatro rodas tracionando inclusive no asfalto seco e oferece ainda bloqueio do diferencial central, reduzida e bloqueio traseiro.
244 km antes da largada
Havia uma condição para entrar no percurso do Sertões: esperar. Como não éramos competidores, só poderíamos acessar a primeira especial depois da passagem do último carro, tanto para não interferir na disputa quanto por segurança.
Eu faria parte do caminho junto da equipe Limpa Trilha, coordenada por Maurício Menella. Na noite anterior, durante o jantar, Maurício abriu a planilha do percurso e explicou como funcionava o trabalho. Depois que os competidores passam, a equipe percorre a especial registrando danos e recolhendo resíduos e peças deixadas pelo caminho, seja um vazamento de óleo, um pedaço de carro ou até uma cerca derrubada.
Antes de descobrir isso de perto, havia 244 km de deslocamento pela frente, boa parte em estradas de terra. Para os competidores, aquilo seria apenas uma fração do dia: a primeira etapa ligava Goiânia a Cavalcante em um percurso total de 650 km, incluindo 342 km de especial cronometrada.
Foi nesses primeiros quilômetros fora do asfalto que a Savana Sertões começou a explicar o próprio nome. O caminho tinha costelas de vaca, depressões severas e uma sequência de irregularidades que colocavam a suspensão para trabalhar praticamente o tempo inteiro.
Usei o Super Select no modo 4H e a Triton avançou sem batidas secas ou sinais de fim de curso nos trechos que atravessamos. Os pneus mais cravudos também combinavam bem com o piso, mas o que mais chamou minha atenção inicialmente foi algo muito menos vistoso: a vedação da cabine.
A poeira parece talco
Quem já passou por uma estrada de terra muito seca conhece a quantidade de poeira que outro carro pode levantar. No Sertões, ela era extremamente fina e densa, quase como talco. Como passei boa parte do caminho atrás dos veículos do Limpa Trilha, em vários momentos entrei literalmente dentro daquela nuvem.
Nas paradas dava para perceber exatamente até onde ela chegava. A poeira tomava a parte externa das portas e se acumulava na região onde as borrachas encontravam a carroceria. Dali para dentro, porém, a Triton continuava limpa.
É um detalhe menos chamativo do que snorkel ou pneus off-road, mas importante quando se passa horas em uma estrada como aquela. Guardei aquela imagem para conferir novamente no fim da viagem.
Entramos na especial
Chegamos ao ponto de largada e aguardamos o último competidor passar. A estrutura era relativamente simples, embora houvesse até um helicóptero acompanhando a operação. Poucos minutos depois, recebemos autorização para entrar.
O caminho era estreito e bastante irregular, com curvas fechadas e cegas, buracos, erosões, valetas escondidas e muitas costelas de vaca. Em alguns pontos, os competidores chegam a passar dos 150 km/h; nós seguíamos normalmente entre 40 e 60 km/h, ritmo suficiente para entender melhor o tamanho dos obstáculos enfrentados em velocidade de competição.
Antes de completar 1 km, Maurício parou. Uma cerca havia sido derrubada por algum veículo que não conseguiu completar uma curva. Vieram fotos, anotações e a marcação do local antes de voltarmos aos carros.
Cerca de 3 km depois houve nova parada. Olhei em volta e inicialmente não consegui identificar o motivo, mas quase enterrado na poeira havia um para-barro arrancado de algum competidor. Os olhos treinados do Limpa Trilha tinham visto de longe.
O que fica depois que a corrida passa
Na sequência encontramos uma longa reta e conseguimos ganhar um pouco mais de velocidade. Estávamos perto dos 80 km/h quando chegamos a uma curva de média para a esquerda, seguida por uma valeta na saída. Maurício reduziu logo depois e parou novamente.
À frente havia um UTV embaixo de uma árvore, virado de frente para nós. Os ocupantes estavam bem, mas tinham acabado de sofrer um acidente forte. Segundo relataram, outro UTV havia capotado naquele mesmo ponto e, ao tentarem fazer um desvio rápido, encostaram as rodas em um barranco. O resultado foram três capotamentos a aproximadamente 125 km/h, segundo os próprios ocupantes. Uma barra de direção entortada e um vazamento no sistema de freio encerraram a etapa para eles.
Recolhemos partes da carenagem e até uma roda quebrada. Os competidores sabem que o Limpa Trilha passará depois e, quando uma peça danificada não pode ser transportada, ela acaba deixada na margem. O material segue para o próximo ponto de apoio e, dependendo do estado, pode até voltar às mãos das equipes durante os reparos feitos depois da etapa.
Era uma parte do Sertões que dificilmente aparece nas imagens da corrida. Enquanto pilotos e navegadores seguem para o próximo destino, ainda existe uma operação trabalhando no caminho deixado para trás.
24 km dentro de uma especial
Seguimos por aproximadamente 12 km antes de chegar a hora de voltar. Maurício calculava que a equipe ainda teria facilmente outras sete horas de trabalho pela frente, com a possibilidade de passar parte da noite no próprio percurso. Eu precisava chegar a Cavalcante para retornar a São Paulo na manhã seguinte.
Refizemos o caminho e fechamos aproximadamente 24 km dentro da especial. Parece pouco diante dos 342 km cronometrados daquela etapa, mas lá dentro a percepção é bem diferente. Foram valetas, costelas de vaca, erosões, curvas fechadas e trechos castigados pela passagem dos competidores. No nosso ritmo, a Triton atravessou tudo sem grandes dificuldades e manteve o comportamento que eu já havia percebido durante o deslocamento até a largada.
Mais interessante do que procurar o limite da picape era perceber como aquele ambiente combinava com a proposta da Savana Sertões. A própria organização usa Triton em diferentes funções de apoio e na definição de rotas, colocando as picapes para acumular quilômetros em terrenos acidentados, travessias e caminhos que poucos proprietários encontrarão no dia a dia.
Os quilômetros acompanhando o Limpa Trilha também mostraram que o Sertões não termina quando o último competidor passa. Enquanto o restante da caravana começa a se deslocar para a próxima cidade, ainda há horas de trabalho para registrar danos, retirar peças e deixar o caminho para trás.
Quando retornamos à largada e segui viagem, Maurício e o restante da equipe ainda tinham boa parte da especial pela frente.
De Goiânia para a Chapada dos Veadeiros
Meu destino era Cavalcante, no norte da Chapada dos Veadeiros. Depois da estrutura e da movimentação de Goiânia, o cenário mudava completamente. A pequena cidade fica a cerca de 500 km da capital goiana e tem menos de 10 mil habitantes, espalhados por um município de quase 7 mil km².
Cavalcante abriga ainda parte do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros e comunidades Kalunga. Para o Sertões, seria o fim da primeira etapa e o ponto de partida do dia seguinte, quando os competidores seguiriam em direção a Luís Eduardo Magalhães, na Bahia. Para mim, seria o fim daquela experiência.
Quando finalmente cheguei à cidade, depois de mais algumas horas ao volante, olhei para o hodômetro da Triton: pouco mais de 720 km. Eu havia recebido a Savana Sertões em Goiânia com pouco mais de 100 km rodados.
Antes de me despedir, abri mais uma vez a porta e olhei para dentro. Depois de tantas horas atrás de outros carros, estradas de terra e uma quantidade de poeira que parecia capaz de entrar em qualquer fresta, a cabine continuava praticamente limpa.
Foi justamente aquela característica discreta que acabou ficando entre minhas principais lembranças da viagem. A Triton seguiria acompanhando o rali em ações da Mitsubishi e no apoio à prova, enquanto minha passagem pelo Sertões terminava ali.
Foram centenas de quilômetros de asfalto e terra, 24 deles dentro de uma especial poucos minutos depois dos competidores, além da oportunidade de conhecer uma parte da prova que normalmente fica longe das câmeras. Para uma picape que carrega Sertões no nome, dificilmente haveria cenário mais apropriado.
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