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Agora com base chinesa, nova VW Amarok está provocando crise na Argentina

Troca de geração reduzirá drasticamente participação da indústria local e já provoca centenas de demissões

Nova Volkswagen Amarok
Foto de: Volkswagen
Thomas Tironi Thomas Tironi

A troca de geração da Volkswagen Amarok tem consequências bem maiores do que uma simples mudança de plataforma ou motorização na Argentina. Depois de 16 anos produzindo a picape atual em General Pacheco, a Volkswagen prepara uma sucessora baseada na chinesa SAIC Maxus Interstellar X, enquanto boa parte da cadeia local de fornecedores construída ao redor do modelo antigo perde contratos, reduz operações e, em alguns casos, já se prepara para fechar fábricas.

Segundo levantamento do Autoblog Argentina, apenas 16 dos 60 fornecedores locais que atendem à Amarok atual participam do novo projeto. O dado ajuda a dimensionar não apenas a crise vivida pelas fabricantes de autopeças, mas também o quanto a próxima picape tem uma origem industrial diferente da antecessora, que nasceu de um projeto alemão e se integrou profundamente à cadeia argentina ao longo dos últimos 16 anos.

Nova Amarok é muito mais chinesa que argentina

Quando anunciou oficialmente a nova geração da Amarok, a Volkswagen fez questão de destacar que o projeto tinha participação importante de seus times sul-americanos de engenharia, desenho, testes e calibração, especialmente para adaptar suspensão, direção, eletrônica e comportamento dinâmico às condições locais. Isso, porém, não muda o fato de que a base do projeto é a Maxus Interstellar X, desenvolvida pela SAIC na China e já vendida por lá com diferentes opções de motorização.

A relação entre as duas vai muito além de dimensões ou proporções semelhantes, já que a futura Amarok usa a arquitetura da picape chinesa, compartilha boa parte de sua estrutura e pode aproveitar também diferentes soluções mecânicas já disponíveis ou em desenvolvimento pela SAIC. E o que isso significa? Menos dependência de fornecedores e de engenharia local.

Maxus Interstellar X

Maxus Interstellar X

Foto de: Divulgação

Os números não mentem: a Amarok atual nasceu de um projeto alemão e ajudou a formar ao redor de General Pacheco uma rede de 60 empresas locais ao longo de mais de uma década, enquanto a sucessora continua sendo montada na Argentina, mas, até o momento, preserva apenas 16 dessas companhias dentro do programa.

Isso não significa, é claro, que a nova picape seja simplesmente uma Maxus com logotipo da Volkswagen, especialmente porque a marca trabalha em mudanças importantes de calibração. Ao mesmo tempo, também deixa claro que o fato de a produção continuar em Pacheco não significa necessariamente repetir o mesmo nível de integração com a indústria local.

Fornecedores não conseguem novos contratos

O baque provocado pela troca da Amarok acontece num momento particularmente difícil para a indústria automotiva argentina como um todo. Afinal, várias marcas já vinham reduzindo produção em diferentes fábricas ao longo de 2026 por lá.

Só no primeiro semestre, a fabricação nacional de veículos caiu 18,3%, pressionada pelo encerramento de diversos modelos e por uma demanda regional mais fraca, movimento que levou fabricantes a rever turnos, metas e volumes mesmo em projetos relativamente recentes.

Novo Peugeot 208 em El Palomar

Novo Peugeot 208 em El Palomar

Em El Palomar, o grupo Stellantis reduziu o ritmo das linhas do Peugeot 208 e 2008 diante da menor demanda na Argentina e no Brasil, enquanto no complexo de Ferreyra eliminou um dos dois turnos dedicados às Fiat Titano e Ram Dakota. Nesse último caso, a revisão foi especialmente pesada, já que a previsão conjunta das duas picapes caiu de 27 mil para 16,5 mil unidades em 2026, uma redução de quase 40% sobre a estimativa original.

Nem mesmo a Ford Ranger, que continua entre as picapes médias mais vendidas tanto na Argentina quanto no Brasil, escapou dos cortes. A fabricante norte-americana decidiu diminuir a velocidade da linha de General Pacheco para adequar o volume à demanda regional, mesmo com a unidade ainda figurando entre as poucas fábricas do país que produziam mais do que no ano anterior e mantendo novos investimentos no projeto.

Volkswagen - Fábrica de Pacheco (Argentina)

Fábrica da Volkswagen em Pacheco - Argentina

Foto de: Motor1.com

É nesse ambiente que os fornecedores da Amarok atual precisam se virar para encontrar novos contratos depois de perder espaço na próxima geração, e algumas empresas simplesmente não estão conseguindo. A alemã Kromberg & Schubert, por exemplo, chegou à Argentina em 2009 justamente para produzir chicotes elétricos exclusivamente para a picape da Volkswagen e já anunciou que encerrará sua fábrica ao fim de 2026, deixando mais de 200 trabalhadores sem emprego.

A Irauto, ligada ao espanhol Grupo Antolin e responsável pelos revestimentos internos do teto, também ficou fora do novo projeto e decidiu abandonar o país, com perda prevista de outros 80 postos de trabalho. Há ainda a possibilidade de parte da operação ser transferida para a Trefelt, outra fornecedora ligada à Volkswagen, mas até agora não existe confirmação oficial.

Fábrica da Ford em Pacheco - Argentina

Fábrica da Ford em Pacheco - Argentina

Situação ainda mais delicada vive a Pelzer System, instalada no Parque Industrial de Pilar desde 2009 para fabricar materiais de isolamento acústico e carpetes da Amarok. A empresa chegou a empregar cerca de 100 pessoas, mas hoje mantém apenas 13 funcionários enquanto tenta encontrar novos clientes depois de saber, ainda no início do ano, que não participaria da nova geração.

Outros fornecedores tradicionais, como Motherson, Caimari e Albano Cozzuol, continuam negociando alguma participação no projeto, mas já trabalham com a perspectiva de volumes e contratos menores. Segundo a associação argentina de fabricantes de autopeças, a AFAC, 63 empresas do setor fecharam ou cancelaram projetos no país desde 2009, enquanto somente em 2025 foram perdidos cerca de 4.100 empregos.

Nova Amarok chega em 2027

Como forma de se despedir da geração atual, a marca já apresentou a série especial limitada Unlimited, disponível tanto na Argentina quanto no Brasil. Ela marcará o apagar das luzes da produção da geração feita desde a década passada, enquanto a próxima linha já tem data para chegar ao mercado: primeiro trimestre de 2027.

O que você pensa sobre isso?

Embora a Volkswagen confirme apenas que a nova picape será híbrida, sem detalhar oficialmente o conjunto mecânico, Motor1.com Brasil revelou em abril informações exclusivas sobre a versão de topo de linha. Segundo apuração do CEO Fábio Trindade, a picape será lançada como Amarok 800 TSI, em referência aos 800 Nm (81,6 kgfm) de torque combinado do sistema híbrido plug-in.

O conjunto deverá superar 470 cv de potência, contar com tração integral e acelerar de 0 a 100 km/h em menos de cinco segundos, desempenho que colocará o modelo entre as picapes mais rápidas do mundo. A estratégia faz parte do reposicionamento do modelo, que deixará para trás o tradicional V6 turbodiesel para apostar na eletrificação sem abrir mão da performance que sempre marcou a história da picape.

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