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Não adianta frear: novos radares medem velocidade média

ANTT autoriza testes por 180 dias com novos equipamentos nas pontes Anita Garibaldi e Rio-Niterói

Novos radares de trânsito chegam ao Brasil
Foto de: Divulgação
Diogo De Oliveira Diogo De Oliveira

A velha estratégia de frear antes de passar por um radar e voltar a acelerar logo depois pode estar com os dias contados no Brasil. A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) autorizou dois novos projetos-piloto de fiscalização por velocidade média, um na Ponte Anita Garibaldi, em Santa Catarina, e outro na Ponte Rio-Niterói, no Rio de Janeiro.

Os testes terão duração inicial de 180 dias e servirão para avaliar o funcionamento da tecnologia em rodovias federais concedidas. Por enquanto, porém, os equipamentos não poderão aplicar multas com base exclusivamente na velocidade média calculada. O monitoramento será técnico, experimental e educativo.

Novos radares de trânsito chegam ao Brasil

Novos radares de trânsito chegam ao Brasil

Foto de: Divulgação

Radar calcula quanto tempo o carro levou

Diferentemente dos novos radares com inteligência artificial, que conseguem identificar motoristas usando o celular ou ocupantes sem cinto de segurança, a câmera de velocidade média trabalha com uma conta relativamente simples. Os equipamentos registram a placa e o horário em que o veículo passa por dois pontos previamente determinados da rodovia.

Como a distância entre as câmeras é conhecida, o sistema calcula a velocidade média desenvolvida durante o percurso. Se o veículo chegar ao segundo ponto antes do tempo mínimo necessário para respeitar o limite da via, significa que em algum momento ele trafegou acima da velocidade máxima permitida.

Na Ponte Anita Garibaldi, por exemplo, o monitoramento será feito entre os km 312 e 315 da BR-101, em Laguna, num trecho de aproximadamente 3 km. Considerando o limite de 110 km/h informado para veículos leves nessa parte da rodovia, seria necessário gastar pelo menos cerca de 1 minuto e 38 segundos para completar todo o percurso sem superar essa velocidade.

Novos radares de trânsito chegam ao Brasil

Novos radares de trânsito chegam ao Brasil

Foto de: Divulgação

Não é a mesma tecnologia dos radares com IA

Embora os dois sistemas representem uma nova fase da fiscalização eletrônica, eles não devem ser confundidos. Os radares com inteligência artificial analisam imagens e procuram padrões associados a determinadas condutas, como a ausência do cinto ou um telefone celular nas mãos do motorista.

Já o controle de velocidade média não precisa “enxergar” o que acontece dentro do veículo. A tecnologia reconhece a mesma placa em dois locais, compara os horários e divide a distância percorrida pelo tempo gasto. A inteligência está na integração dos registros, e não no comportamento dos ocupantes.

Os dois modelos, contudo, têm algo em comum: tornam menos eficaz a reação pontual do motorista diante de um radar. Conforme o Motor1.com Brasil mostrou no primeiro balanço das câmeras com IA na Raposo Tavares, a fiscalização eletrônica já consegue alcançar condutas antes difíceis de registrar. Pois a velocidade média amplia essa lógica.

Radar de barulho em Curitiba

Radar em Curitiba

Teste começa na Ponte Anita Garibaldi

A autorização para o projeto-piloto na Ponte Anita Garibaldi foi publicada pela ANTT no Diário Oficial da União em 11 de setembro. O sistema será operado pela ViaCosteira entre os km 312 e 315 da BR-101, na região de Laguna, e o prazo de 180 dias começará a contar somente depois da implantação efetiva do monitoramento.

A concessionária deverá instalar sinalização para informar os motoristas sobre o teste e encaminhar relatórios mensais à Superintendência de Infraestrutura Rodoviária da ANTT. O período poderá ser prorrogado, encerrado antecipadamente ou revogado, dependendo dos resultados técnicos e do interesse público.

Durante o experimento, nenhum motorista poderá ser autuado apenas porque o sistema calculou velocidade média superior à máxima da via. Os dados servirão para verificar a precisão dos equipamentos, o comportamento do tráfego e a viabilidade de uma futura regulamentação nacional.

Average Speed Camera

Radares de velocidade média são comuns na Europa

Rio-Niterói terá trecho monitorado de 9 km

A Ponte Rio-Niterói também receberá um projeto com as mesmas características. O monitoramento abrangerá 9,02 km da BR-101, entre os km 323,700 e 332,720, no sentido Norte, em direção a Niterói. O experimento igualmente terá duração de 180 dias, contados a partir do início da operação.

A Ecoponte deverá sinalizar o trecho e fornecer relatórios periódicos à ANTT, mas não haverá emissão de multas ou aplicação de outras penalidades baseadas exclusivamente no tempo gasto para atravessar a área monitorada.

As duas pontes oferecem condições interessantes para testar a tecnologia por serem trechos contínuos e com percursos bem delimitados. Isso reduz interferências provocadas por acessos, retornos e saídas intermediárias, um dos pontos que precisam ser considerados antes de levar o sistema a segmentos mais complexos de uma rodovia.

Radares com IA já aplicam multas na rodovia Raposo Tavares em São Paulo

Radares com IA já aplicam multas na rodovia Raposo Tavares em São Paulo

Foto de: Motor1 Brasil

Por que ainda não pode multar?

A fiscalização por velocidade média já é utilizada em diversos países europeus, mas continua sem regulamentação específica para aplicação de multas no Brasil. O artigo 218 do Código de Trânsito Brasileiro trata do excesso de velocidade medido por instrumento ou equipamento hábil, enquanto a Resolução Contran nº 798/2020 estabelece os requisitos técnicos da fiscalização eletrônica.

A regulamentação atual foi construída em torno da velocidade medida no local e no momento do flagrante. O auto de infração deve informar, entre outros dados, a velocidade medida pelo equipamento e a velocidade considerada depois da aplicação da margem de erro. No controle por média, porém, o resultado vem da combinação entre distância e tempo, e não de uma leitura pontual.

O artigo 280 do CTB permite que uma infração seja comprovada por aparelho eletrônico ou outro meio tecnológico previamente regulamentado pelo Contran. A discussão jurídica está justamente nesse ponto: ter um sistema tecnicamente capaz de demonstrar que o veículo percorreu um trecho rápido demais não significa que o resultado já possa ser usado para aplicar uma penalidade.

Radar

Radar

Associação questiona segurança jurídica

A Associação dos Usuários de Rodovias em Santa Catarina (Auresc) criticou a instalação do sistema na Ponte Anita Garibaldi e defendeu que a legalidade do modelo seja analisada antes de qualquer autorização para multar. Para a entidade, a fiscalização por checkpoints é diferente do radar convencional porque não mede diretamente a velocidade do veículo num ponto específico.

A associação também aponta que uma futura regulamentação precisará assegurar ao motorista acesso aos horários registrados, à distância considerada, ao cálculo realizado e à margem de erro adotada. Essas informações seriam necessárias para garantir o direito de defesa em caso de autuação.

Outra preocupação envolve rodovias com acessos, saídas e retornos entre as câmeras. Um veículo pode deixar o trecho, parar durante algum tempo ou entrar depois do primeiro ponto de controle, situações que precisam ser corretamente tratadas para evitar registros incompletos ou interpretações equivocadas.

Brasil testa sistema há quase uma década

Esta não é a primeira experiência brasileira com radares de velocidade média. Em 2017, o Motor1.com Brasil mostrou que a cidade de São Paulo começaria a monitorar o tempo de percurso entre equipamentos instalados nas avenidas 23 de Maio e dos Bandeirantes e na pista expressa da Marginal Tietê.

O que você pensa sobre isso?

O sistema também tinha caráter educativo e não aplicava multas. Na época, um teste anterior realizado pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET-SP) havia indicado que o número de veículos acima da velocidade média permitida poderia ser até sete vezes maior do que o total flagrado pelos radares pontuais.

Quase uma década depois, a tecnologia está novamente em avaliação, agora sob coordenação da ANTT e em duas importantes pontes rodoviárias. Os equipamentos já conseguem provar que frear apenas diante da câmera não garante o respeito ao limite durante o percurso. O que falta é definir como essa informação poderá virar multa sem deixar dúvidas técnicas ou brechas jurídicas.

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