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Claudio Carsughi, mestre do jornalismo brasileiro (1932-2026)

Em 77 anos de carreira, ele acompanhou mudanças nos carros, esportes e imprensa

Claudio Carsughi a bordo de uma Ferrari
Foto de: Divulgação
Jason Vogel Jason Vogel

A cada lançamento de carro, antes de fazer sua pergunta na entrevista coletiva, um senhor calvo, magro e impecavelmente trajado se apresentava com sotaque italiano:

“Claudio Carsughi, de La Stampa…”

Era uma formalidade perfeitamente dispensável. Todos na indústria automobilística e na imprensa especializada, assim como muitos leitores, ouvintes e telespectadores, sabiam quem era aquele veterano jornalista.

Italiano de nascimento e radicado no Brasil desde a adolescência, Carsughi foi um dos nomes mais importantes da história do jornalismo automotivo brasileiro. Acompanhou praticamente toda a evolução da indústria automobilística nacional, dos primeiros carros produzidos no país à era da eletrificação.

Hoje, aos 93 anos, ele nos deixou, depois de passar 27 dias internado devido a uma infecção respiratória. A morte foi comunicada por sua filha, a jornalista Claudia Carsughi.

Claudio Carsughi
Foto de: Divulgação

Copa de 50

Nascido em Arezzo, na Itália, em 13 de outubro de 1932, Claudio Carsughi mudou-se ainda menino para Florença. Depois da Segunda Guerra Mundial, em 1946, veio com a família para o Brasil, estabelecendo-se em São Paulo. Estudou no tradicional Colégio Dante Alighieri antes de ingressar na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, onde se formou em Engenharia.

O jornalismo, porém, apareceu muito cedo. Aos 17 anos, começou a escrever para o italiano Corriere dello Sport, como correspondente da publicação no Brasil. Em 1950, acompanhou a movimentação em torno da primeira Copa do Mundo disputada aqui. Em sua longa carreira, também colaborou com publicações italianas como Calcio e Ciclismo Illustrato, Tuttosport e La Stampa.

E foi como cronista que trabalhou para jornais brasileiros como A Gazeta Esportiva (SP), onde mantinha a coluna “O futebol nos cinco continentes”.

Em 1957, iniciou uma longa relação com a Rádio Panamericana, futura Jovem Pan, onde comentava futebol, Fórmula 1 (numa época em que as corridas não eram transmitidas pela TV) e assuntos da indústria automobilística. A ligação com a emissora, ainda que interrompida em alguns períodos, atravessaria quase seis décadas.

Carsughi passou por veículos como Gazeta Esportiva e Jornal da Tarde, para o qual foi convidado pelo compatriota Mino Carta em 1965. Trabalhou ainda na Editora Abril e, em julho de 1975, estreou na revista Quatro Rodas, onde assumiu a área técnica e as avaliações de automóveis, juntamente com o também italiano Emilio Camanzi, então o chefe de reportagem.

Foi ali que Carsughi se tornou referência para sucessivas gerações de jornalistas especializados. Em uma época muito anterior aos instrumentos digitais portáteis e à abundância de dados fornecidos pelos próprios carros, testar significava medir, cronometrar, comparar e interpretar. Os números precisavam ser obtidos e depois transformados em informação compreensível para o leitor.

Durante os 15 anos em que permaneceu na revista, a função também o pôs em contato direto com engenheiros, projetistas, executivos e pilotos, justamente em um período de enorme transformação da indústria brasileira.

Carsughi viu nascer carros que entrariam para a história nacional. Foi o primeiro jornalista a conhecer e testar o VW Gol, cuja despedida também acompanharia décadas mais tarde. Sua paixão sobre rodas era um Karmann-Ghia, usado diariamente por muitos anos.

Paralelamente ao jornalismo automotivo, manteve intensa atividade no esporte. No futebol, esteve em cinco Copas do Mundo consecutivas como comentarista da Pan, entre 1970 e 1986. Também passou pelas rádios Bandeirantes e Record e participou de grandes coberturas internacionais.

Depois de deixar Quatro Rodas, em 1990, continuou na imprensa especializada como editor executivo da revista Oficina Mecânica. Mais tarde, participou da criação da Auto&Técnica. Em 1992, a convite da Ferrari, visitou Maranello e pilotou uma Testarossa na pista de Fiorano. Voltaria à fábrica italiana em 2011, quando guiou uma Ferrari California.

Na televisão, trabalhou na ESPN Brasil e no SporTV, falando sobre futebol, Fórmula 1 e motociclismo. Mais tarde, integrou ainda a Rádio Nacional e a TV Brasil.

Depois do impresso, do rádio e da televisão, o jornalista chegou à internet. Em 2012, criou com a filha o Site do Carsughi, dedicado a automóveis, automobilismo, futebol e turismo. Posteriormente, produziu conteúdo para o UOL.

Ao longo da carreira, Carsughi testemunhou a evolução dos motores, da segurança e da eletrônica, dos primeiros carros nacionais aos atuais modelos eletrificados. Foram sete décadas ao volante, conversando com quem os projetava, medindo o que faziam e, principalmente, explicando tudo isso ao leitor, ao ouvinte e ao telespectador. Nesse tempo, viu mudar não apenas o automóvel, mas também a maneira de falar sobre ele.

O que você pensa sobre isso?

Sua importância para o jornalismo automotivo brasileiro está nessa longevidade combinada ao rigor. Carsughi pertenceu a uma geração na qual o jornalista especializado precisava compreender profundamente aquilo sobre o que escrevia. No caso dele, a formação técnica, a curiosidade e décadas de convivência com carros e engenheiros produziram uma autoridade que dispensava apresentações.

Carsughi foi casado com Hilda Carsughi (falecida em 2009) e deixa dois filhos, Claudia e Odoardo.

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