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Ford Ranger 6x6, uma invenção para as forças armadas britânicas

Com terceiro eixo e motor elétrico traseiro, picape tentará substituir o Defender

Kit Ricardo - Ford Ranger HEX 6x6 Hybrid (2)
Foto de: Divulgação
Jason Vogel Jason Vogel

A Ranger já teve incontáveis versões, mas nenhuma tão guerreira quanto esta. A Ford desenvolveu uma Ranger Super Duty 6x6 para disputar uma concorrência do Ministério da Defesa do Reino Unido destinada à aquisição de novos veículos militares leves. O objetivo é substituir os Land Rover Wolf, baseados nos antigos Defender.

O projeto das Ranger de seis rodas faz parte do Light Mobility Vehicle (LMV) Programme e foi desenvolvido em parceria com duas empresas britânicas especializadas no setor de defesa: Ricardo e General Dynamics Land Systems UK. A Ford fornece a base, enquanto as parceiras trabalham na engenharia e na adaptação das picapes para emprego militar.

O que nos interessa aqui são as versões 6x6, mas a proposta prevê também diferentes configurações da Ranger com quatro rodas, incluindo veículos táticos, blindados, transportes de tropas e ambulâncias.

Como é a Super Duty civil?

Produzida na Tailândia para mercados como a Austrália e a Nova Zelândia, a Ranger Super Duty já traz de fábrica uma série de modificações para realizar trabalhos normalmente reservados a veículos de categorias superiores.

Na configuração convencional, a Super Duty pode rebocar até cerca de 4.500 kg e transportar 1.980 kg de carga. Para chegar a esses números, a receita inclui chassi e suspensão reforçados, eixos mais robustos, bitolas maiores, pneus de uso pesado e freios dimensionados para cargas superiores.

Sua mecânica é bem conhecida no Brasil: o V6 3.0 turbodiesel “Lion”, de 250 cv e 61,2 kgfm, acoplado ao câmbio automático Ford-GM 10R80, de dez marchas, o mesmíssimo conjunto usado nas Ranger topo de linha vendidas em nosso mercado.

Hoje, esses V6 estão entre os últimos produtos feitos na histórica (e outrora fervilhante) fábrica da Ford em Dagenham, distrito da Região Metropolitana de Londres. No caso da Ranger militarizada, o motor a combustão conta com um auxílio extra…

Ranger Super Duty com terceiro eixo

Ranger Super Duty com terceiro eixo

Foto de: Divulgação

Um kit para encaixar

O sistema HEX 6x6 para a Ranger foi patenteado em 2023 pela tradicional empresa britânica de engenharia Ricardo, responsável pelo fornecimento dos motores atualmente usados pelos McLaren de rua, pelo câmbio do Bugatti Veyron e por transmissões e componentes mecânicos para protótipos de Le Mans (LMP1/LMDh), carros de Fórmula 1 (em parceria com a Xtrac) e do Mundial de Rali (WRC).

Trata-se de uma conversão em 6x6 “por encaixe”, que não requer qualquer alteração no chassi da Ranger Super Duty de série. Esse terceiro eixo vem montado em uma suspensão do tipo De Dion, solução robusta e eficiente em termos de peso, que também proporciona melhor controle das rodas, favorecendo a tração e o conforto de rodagem.

Mas o principal é que o terceiro eixo traz também um motor elétrico com nada menos que 210 kW (286 cv), ou seja: uma potência até maior que a do V6 turbodiesel original!

O motor elétrico pode tracionar o terceiro eixo ou ser desacoplado quando não for necessário. Aí, a picape pode rodar como 6x4. O sistema híbrido funciona de forma independente, sem ligação mecânica entre os motores a combustão e elétrico: nas desacelerações, recupera energia da frenagem para recarregar a bateria e, nas acelerações, usa essa energia para acionar o motor elétrico, fornecendo torque adicional e compensando a perda de desempenho causada por cargas pesadas.

Existe até um termo para esses híbridos, nos quais os dois sistemas de propulsão atuam sobre eixos distintos, sem conexão mecânica entre eles: through-the-road (“pela estrada”, na tradução literal).

Há baterias de diferentes capacidades, conforme a aplicação, e todos os componentes de alta tensão ficam reunidos em um único compartimento, por razões de segurança e facilidade de manutenção. O kit pode, inclusive, ser transferido para outra Super Duty.

Opções militarizadas de Ranger Super Duty
Foto de: Divulgação

Caso o contrato saia, a montagem do terceiro eixo, bem como a militarização das Ranger Super Duty em suas variadas configurações, sejam 4x4 ou 6x6, ficará a cargo da General Dynamics Land Systems UK, no País de Gales.

Com a instalação do terceiro eixo, a versão militar 6x6 ganha potencial para transportar cargas ainda maiores e distribuir melhor o peso, algo particularmente importante nas configurações destinadas ao transporte de soldados, equipamentos ou feridos.

Mesmo com aparência essencialmente semelhante à da picape civil, a versão militar mantém a central multimídia de 12" polegadas. Nesse caso, porém, a tela pode assumir funções bem menos recreativas: a Ford prevê sua integração com softwares táticos desenvolvidos por terceiros.

Há ainda interruptores auxiliares previamente instalados, facilitando a conexão de equipamentos específicos, como sistemas de comunicação, iluminação de emergência e outros dispositivos exigidos pelas forças armadas.

Uma das armas da picape da Ford nessa disputa é o fato de a Ranger ser um produto global: tem produção distribuída por cinco fábricas em quatro continentes e é comercializada em mais de 180 países.

Essa escala pode representar uma vantagem importante para um veículo militar, já que facilita o fornecimento de componentes e peças de reposição em diferentes regiões do mundo, além de aproveitar uma plataforma já produzida em grandes volumes.

Por enquanto, contudo, a Ranger Super Duty 6x6 ainda é uma proposta. Se a Ford ganhar a concorrência, a picape ganhará sua versão mais extrema — e já sonhamos aqui com uma Super Duty civil trucada e “traçada”!

Chevrolet com kit 6x6 Engesa (3)

Chevrolet com kit 6x6 Engesa (3)

Foto de: Divulgação

Brasil já fez algo parecido

A receita não chega a ser totalmente estranha ao Brasil. Décadas atrás, a Engesa já acrescentava um terceiro eixo e tração 6x6 a veículos comerciais nacionais para uso militar. E não fazia isso apenas com caminhões: no comecinho dos anos 1970, a empresa chegou a apresentar uma picape Chevrolet C-15 6x6 equipada com o sistema Bumerangue, suspensão que permitia que as rodas dos eixos traseiros estivessem sempre em contato com o chão, por mais acidentado que fosse o relevo.

O que você pensa sobre isso?

O Exército Brasileiro chegou a utilizar caminhões comerciais transformados pela Engesa em veículos militares 6x6. Foi o caso de modelos como o Ford F-600 e os Chevrolet C-60 e D-60, que recebiam tração integral e outras modificações para o emprego militar.

Em uma categoria mais pesada, houve ainda o Mercedes-Benz/Engesa LG-1519 6x6, o enorme “Mamute”, desenvolvido especialmente para uso militar e equipado com o sistema Bumerangue.

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