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REO: marca do passado volta como startup para fazer picapes de baixo custo

Empresa anuncia 4x4 com chassi de longarinas, motor a gasolina e câmbio manual

REO (2)
Foto de: Reprodução

Quem serviu no quartel até os anos 1980 ou 1990 deve se lembrar dos parrudos caminhões REO, que eram muito usados pelo Exército Brasileiro. Essa fabricante norte-americana tem uma história bem antiga: foi fundada em 1905 por Ransom Eli Olds, pioneiro que havia criado anteriormente a Oldsmobile. Depois de deixar a empresa que levava seu sobrenome, Olds começou uma nova companhia utilizando suas iniciais: REO.

Desde seu início, a marca teve grande presença no Brasil, e não apenas com caminhões. Foi ao volante de um REO que Virginia Lowndes se tornou a primeira mulher com carteira de habilitação no Rio de Janeiro, em 1907.

Os carros de passeio da REO foram vendidos aqui até os anos 1930, quando deixaram de ser fabricados. A essa altura, a companhia já tinha um novo foco nos negócios: os veículos comerciais, com destaque para o caminhão leve REO Speed Wagon.

Depois da Segunda Guerra, os caminhões REO, civis e militares, continuaram a chegar ao Brasil por uns tempos. Comprada pela White Motor Company e fundida com a antiga rival Diamond T, a REO Motor Car Company deixou de existir em 1966. Suas viaturas M35, contudo, permaneceram em uso nos nossos quartéis, resistindo a incontáveis gerações de recrutas.

Em 1907, a REO já tinha agentes no Rio, SP, Rio Grande do Sul e Pará (1)

Em 1907, a REO já tinha agentes no Rio, SP, Rio Grande do Sul e Pará 

Foto de: Reprodução

Toda essa introdução é para contar que a REO está renascendo nos EUA. A marca agora pertence a Zach De Bernardi, empresário do Texas que garantiu os direitos sobre o nome. Ele vem do mercado imobiliário, não da indústria automotiva. Para alguns, isso é motivo para desconfiança; para outros, é o que torna o projeto interessante.

Numa época de picapes cada vez maiores, mais caras, eletrificadas e recheadas de telas, De Bernardi quer seguir na direção contrária: promete pôr no mercado modelos compactos, com chassi separado da carroceria, motor a gasolina, tração 4x4 convencional e até câmbio manual. O mais surpreendente, porém, é o preço previsto: a partir de US$ 21.500 (R$ 110 mil, na conversão direta).

REO Speedwagon 1928 e 1929 (1)

REO Speedwagon 1928 e 1929 

Foto de: Reprodução

Por enquanto, tudo está no campo das promessas. A empresa ainda não apresentou um protótipo funcional ou sequer uma fábrica pronta. O que existe são ilustrações e algumas poucas especificações preliminares. Mas a proposta chama atenção por tentar recuperar uma fórmula desaparecida do mercado norte-americano: a da picape pequena, barata, robusta, simples de consertar e feita para durar.

Caminhão militar REO M35

Caminhão militar REO M35

Foto de: Reprodução

Inspiração japonesa

Apaixonado por 4x4, De Bernardi quer incorporar aos novos REO algumas das características que aprecia nos antigos Toyota Land Cruiser. Outra inspiração é a Toyota Champ, picape ultrassimples, hoje fabricada na Tailândia e nas Filipinas. 

De Bernardi bolou até uma expressão para a categoria na qual pretende encaixar os novos modelos: “Ameri-Kei”. A referência vem dos kei cars japoneses, criados para oferecer transporte barato dentro das rígidas limitações de dimensões e cilindrada estabelecidas no Japão. A ideia da REO, entretanto, não é reproduzir um kei car nos Estados Unidos.

Seus utilitários e picapes serão maiores que os carrinhos japoneses. Terão motores de quatro cilindros e serão compatíveis com as rodovias norte-americanas. O primeiro modelo prometido é a Runabout T4X, de cabine simples. A família deverá ganhar ainda a Runabout T4C, de cabine dupla, e o Runabout S4C, um SUV.

O comprimento anunciado para a T4 é de 4,57 metros. Como referência, é um ponto intermediário entre os 4,47 m da atual Fiat Strada cabine simples e os 4,70 m da Renault Oroch. Sua carga útil deverá ser de 545 kg, com capacidade de reboque de até duas toneladas.

A proposta é oferecer ao mercado norte-americano uma picape menor e bem mais barata que a Ford Maverick, além de uma alternativa à Slate, modelo elétrico espartano de marca independente, com lançamento previsto ainda para este ano.

REO Teaser 1

REO Teaser 1

Foto de: Reprodução

Feita para durar

Nada de eletrificação. Os novos REO terão motor de quatro cilindros a gasolina, de um fornecedor ainda não anunciado. A companhia prevê que de 5% a 10% de suas picapes serão equipadas com câmbio manual de seis marchas, algo cada vez mais raro entre picapes vendidas nos EUA. O restante terá uma transmissão automática, também de seis velocidades. A tração será 4x4 de acionamento tradicional, por uma caixa de transferência mecânica.

A filosofia da simplicidade continua na cabine. Em vez de concentrar todas as funções em uma central multimídia, a REO utilizará poucas telas e muitos comandos físicos. Há até espaço para ressuscitar algumas soluções do passado, como ar-condicionado com caixa evaporadora instalada sob o painel.

REO Teaser 2

REO Teaser 2

Foto de: Reprodução

A empresa estabelece as 500 mil milhas (805 mil quilômetros) como meta de vida útil da picape e promete projetar os veículos de maneira a facilitar a manutenção e os reparos pelos próprios proprietários.

Entre as propostas divulgadas estão painéis externos da carroceria que poderiam ser removidos em menos de cinco minutos utilizando ferramentas comuns, diagnóstico de falhas apresentado em linguagem simples e acessível por meio de scanners de US$ 30 e um catálogo de peças de reposição mantido durante 20 anos, com preços razoáveis.

A filosofia se aproxima daquela adotada pela Slate, startup que também aposta em um veículo simples e acessível. A diferença fundamental está na mecânica: enquanto a Slate desenvolveu uma picape elétrica minimalista, a REO acredita que ainda existe uma grande parcela do mercado interessada em uma picape convencional a combustão.

REO Teaser 3

REO Teaser 3

Foto de: Reprodução

Longo caminho até a realidade

A REO pretende cobrar US$ 21.500 pela versão de entrada da Runabout. Se conseguir cumprir a promessa, sua picape estará entre os automóveis novos mais baratos dos Estados Unidos (e não apenas entre as picapes).

Para comparação, a Slate Truck elétrica foi anunciada por US$ 24.950, enquanto uma Ford Maverick XL custa a partir de US$ 27.145 com motor 2.0 turbo a gasolina. A versão híbrida da Maverick parte de US$ 28.145. O futuro SUV Runabout S4C, por sua vez, tem preço inicial divulgado de US$ 28.500.

O que você pensa sobre isso?

Pelo cronograma, o modelo final será revelado ainda em 2026, com protótipos físicos mostrados no ano que vem. As entregas começarão entre 2028 e 2029. A REO diz que a fábrica será no Texas, mas não diz exatamente onde…

Há uma enorme distância entre idealizar uma picape simples no papel e produzi-la em grande escala por pouco mais de US$ 20 mil. Se conseguir cumprir tudo isso, a REO poderá ressuscitar não apenas uma marca histórica, mas um tipo de veículo que desapareceu das concessionárias norte-americanas.

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