Ferrari Luce esgota em dois meses sua meta total de vendas para 2026
Desde maio, modelo já teve 500 exemplares comercializados, diz jornal britânico
Enquanto discutíamos se a polêmica Luce traía as tradições estéticas da Ferrari ou o DNA da marca, as máquinas registradoras de Maranello tilintavam sem parar. Apenas dois meses após a estreia de seu primeiro modelo elétrico, a Ferrari já atingiu a meta total de vendas da Luce para 2026. A informação foi publicada pelo Financial Times, com base em duas fontes com conhecimento direto do assunto.
Oficialmente, a Ferrari nunca divulgou qual era seu objetivo comercial para o novo modelo, lançado em 25 de maio. Segundo as fontes ouvidas pelo jornal econômico britânico, porém, a meta para o primeiro ano completo de comercialização era vender pouco menos de 500 unidades em todo o mundo. Um dos entrevistados afirmou que esse número foi alcançado ainda em julho.
Para pôr esse resultado em perspectiva, a Ferrari vendeu 13.640 automóveis globalmente em 2025. Se cerca de 500 unidades da Luce forem comercializadas em seu primeiro ano, o modelo elétrico representará entre 3% e 4% do volume total de vendas da casa de Maranello.
Com preço inicial de € 550 mil na Europa (R$ 3,3 milhões, em conversão direta), a Luce continuará sendo um produto extremamente exclusivo. O plano de longo prazo da Ferrari prevê a comercialização de aproximadamente 2.500 unidades até 2030. Esse volume representaria algo próximo de 5% das vendas anuais da fabricante, proporção considerada perfeitamente factível por analistas do setor.
Sucesso apesar dos puristas
Embora o projeto tenha provocado forte rejeição inicial entre entusiastas e investidores, a procura vem superando as expectativas da própria Ferrari. O principal impulso para esse desempenho veio da China, onde a recepção ao primeiro elétrico da marca foi muito positiva: as 88 unidades destinadas ao país foram vendidas praticamente de imediato. A reportagem de Silvia Sciorilli Borrelli (Milão) e Kana Inagaki (Londres) também afirma que empresários do setor de tecnologia nos Estados Unidos, especialmente em polos como o Vale do Silício, demonstraram receptividade ao modelo.
Desenhada por Jony Ive, ex-chefe de design da Apple, a Ferrari Luce rompeu com diversos elementos tradicionais da marca ao adotar uma carroceria de linhas incomuns para os padrões de Maranello. Muitos críticos compararam seu visual ao de um mouse de computador.
O ex-presidente da Ferrari Luca di Montezemolo chegou a defender publicamente que o modelo deixasse de ostentar o tradicional emblema do cavallino rampante. A reação do mercado financeiro também foi imediata: as ações da Ferrari negociadas na Bolsa de Milão recuaram mais de 8% no primeiro pregão após a apresentação do veículo.
A controvérsia coincidiu ainda com a saída de Enrico Galliera, executivo que comandava as áreas comercial e de marketing da Ferrari havia muitos anos. A fabricante, porém, afirmou que sua substituição por um ex-executivo da BMW já estava planejada antes mesmo do lançamento da Luce, descartando qualquer relação entre os dois acontecimentos.
Um produto à parte
Apesar do turbilhão de ataques, a Ferrari sempre deixou claro que a Luce não foi concebida para substituir seus esportivos com motores V8 ou V12. Segundo o CEO Benedetto Vigna, o objetivo do projeto é demonstrar a capacidade tecnológica da empresa e atrair uma nova geração de clientes de altíssimo poder aquisitivo, especialmente em mercados onde os veículos elétricos já fazem parte do cotidiano.
Para evitar conflitos com sua clientela tradicional, a Ferrari também orientou sua rede mundial de concessionários a não pressionar colecionadores e clientes habituais a migrarem para a propulsão elétrica.
O analista independente Scott Sherwood afirmou ao jornal britânico que a Ferrari demonstra ter um conhecimento excepcional de seu público-alvo. Já James Grzinic, do banco de investimentos Jefferies, avalia que a marca poderá se beneficiar diretamente da criação de riqueza impulsionada pelo crescimento das empresas ligadas à inteligência artificial, ampliando sua base de clientes entre executivos e empreendedores do setor de tecnologia.
Outro indicativo da confiança da Ferrari no potencial comercial da Luce ocorrerá entre os dias 13 e 15 de agosto, durante a Monterey Car Week, na Califórnia. O primeiro exemplar de produção do modelo, identificado pelo chassi de número zero, será leiloado para fins beneficentes pela RM Sotheby's. A expectativa é que o carro ultrapasse US$ 1,1 milhão (R$ 5,6 milhões) na batida do martelo.
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