McMurtry Spéirling Pure: o "carro ventilador" de 1.000 cv entra em produção
Hiperesportivo elétrico usa dois ventiladores para gerar 2 toneladas de downforce
Um dos carros mais doidos já feitos para as pistas deixa de ser protótipo e passa a ser produzido em pequena série. É o McMurtry Spéirling (já falamos dele por aqui). Com a aparência de um Batmóvel desenhado pela Hot Wheels, esse pequenino monoposto elétrico originalmente dispunha de 1.000 cv para mover seus 1.000 quilos — e esse nem era o ponto principal...
Sua característica mais notável é um dispositivo capaz de gerar efeito solo artificialmente e colar o Spéirling ao chão. É o mesmo princípio dos Chaparral 2J e Brabham BT46B, os famosos "carros ventiladores" projetados nos anos 1970 e logo proibidos de competir.
O assoalho liso do carro é vedado ao asfalto por meio de saias flexíveis de borracha. Duas turbinas elétricas — instaladas logo atrás do cockpit — sugam o ar sob o veículo e o expulsam por saídas de ventilação na traseira da carroceria. Isso cria uma região de baixa pressão sob o carro e o "cola" ao chão.
Mesmo com o carro parado, as turbinas conseguem gerar downforce equivalente a 2.000 kg, ou seja, o dobro do peso do Spéirling. Nas arrancadas, o monoposto parece uma pedra lançada por um estilingue.
McMurtry Spéirling Pure (os ventiladores)
Em ação, a 240 km/h, esse efeito aumenta para 2.250 quilos. Daí as velocidades insanas com que esse micro-hipercarro pode atacar as curvas sem desgrudar do asfalto, gerando acelerações laterais superiores a 3 g.
Em 2022, um McMurtry Spéirling pilotado pelo britânico Max Chilton pulverizou o recorde histórico do Festival da Velocidade de Goodwood, na Inglaterra. A marca anterior pertencia a um McLaren MP4/13 guiado pelo alemão Nick Heidfeld.
No ano passado, guiado pelo misterioso piloto Stig, o Spéirling registrou o melhor tempo já obtido no circuitinho do programa Top Gear, baixando em três segundos o recorde do Fórmula 1 Renault R24.
O inconveniente é a quantidade de poeira levantada na pista, um dos motivos que levaram os "carros ventiladores" a serem banidos das competições na década de 1970. Outro detalhe impressionante é o som das turbinas — cerca de 120 decibéis —, lembrando um caça a jato.
Não à toa o nome do carro: Spéirling — assim mesmo, com acento agudo no "é" — significa "trovoada" em irlandês.
A versão atual
A pequena McMurtry Automotive foi criada em 2016 por Sir David McMurtry, que participou do desenvolvimento das turbinas do Concorde e ficou milionário fabricando equipamentos de metrologia industrial de alta precisão.
Até agora, só haviam sido feitos protótipos desse carro. Finalmente chegou a vez da versão de produção — limitada a apenas 100 exemplares. O Spéirling Pure traz 95% de componentes novos.
A bateria cresceu de 60 kWh para 100 kWh, o que obrigou a aumentar a distância entre-eixos em cerca de 20 cm, chegando a 2,20 m. O carro também ficou mais longo e mais alto, com cockpit mais espaçoso dentro de um novo monocoque de fibra de carbono homologado segundo padrões internacionais de segurança no automobilismo. Segundo o fabricante, agora a cabine pode acomodar pilotos de até 2,01 m de altura.
O visual também foi revisto. O carro passa a trazer faróis, uma segunda porta articulada, nova asa traseira e até um pequeno compartimento capaz de levar capacete e HANS. O piloto dispõe de volante estilo Fórmula 1, painel digital, banco moldado sob medida e até ar-condicionado entre os opcionais — e não muito mais do que isso.
A propulsão fica a cargo de novos motores Helix, que entregam 1.012 cv às rodas traseiras. Como o carro e a bateria cresceram, o peso do conjunto subiu para 1.360 kg. Mesmo assim, o Spéirling Pure acelera de 0 a 100 km/h em 1,6 segundo e pode chegar a 306 km/h.
A McMurtry também aprimorou os ventiladores, agora com pás mais resistentes. O sistema ficou mais seguro: se um ventilador falhar, o outro continua funcionando, permitindo que o piloto mantenha o controle do carro.
Os ventiladores levantam poeira
A suspensão também é nova. A altura livre do solo aumentou 20%, há opção de amortecedores adaptativos e pneus Michelin Pilot Sport GT de competição, mais largos e com flancos maiores (30/68-18 na frente e 31/71-18 atrás).
Outro detalhe importante está na operação nos boxes. Um compressor de ar instalado no próprio carro permite levantar a saia inferior do sistema de ventiladores, facilitando a subida do Spéirling Pure em reboques e a movimentação no paddock sem depender de um cilindro externo, como acontecia nos protótipos.
Feito apenas para pista, o Spéirling Pure será praticamente imbatível em provas de Time Attack (volta mais rápida). A bateria pode ser recarregada de 20% a 95% em cerca de 20 minutos em carregadores rápidos, embora esse tempo possa chegar a uma hora, dependendo das condições. A marca também desenvolveu uma unidade portátil de 100 kWh, com saída de 120 kW, para recarregar o carro longe da infraestrutura dos autódromos.
O preço acompanha o grau de exotismo: cerca de £ 995 mil, algo próximo de R$ 6,9 milhões em conversão direta. É muito dinheiro para um carro sem placa, sem banco do carona e que soa como um aspirador de pó gigante. Mas poucos brinquedos de pista conseguem ser tão absurdamente rápidos quanto o McMurtry Spéirling Pure.
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