Alemanha: fornecedores reduzem investimentos e migram para outros países
Alto custo da energia elétrica, excesso de regras e tarifaço ameaçam a indústria local
Desde o tombo da pandemia, a produção automobilística na Alemanha se recuperou parcialmente e passou a girar em torno de 4,1 milhões de veículos por ano, com leve alta em 2025. Além disso, o país encerrou o ano como o segundo maior produtor mundial de carros elétricos, atrás apenas da China. Diante desse cenário, falar em “desindustrialização” parecia um exagero de retórica.
Agora, porém, o alerta vem de dentro da própria indústria. Uma pesquisa divulgada nesta semana pela VDA (Verband der Automobilindustrie, a Associação da Indústria Automotiva alemã) indica que pequenos e médios fornecedores estão abandonando a produção no país em busca de alternativas no exterior.
É o chamado hollowing out (em tradução livre, “esvaziamento” ou “tornar oco”), metáfora usada por economistas para descrever o desaparecimento do “recheio” de algum setor — como uma árvore que parece saudável por fora, mas está ficando oca por dentro.
Realizado neste início de 2026 com 124 empresas do setor automotivo, o levantamento da VDA revela um cenário difícil de relativizar. Nada menos que 72% das companhias ouvidas planejam reduzir sua presença industrial na Alemanha. O detalhamento explica por quê:
- 28% estão transferindo investimentos existentes ou já planejados para outros países
- 25% decidiram adiar investimentos por tempo indeterminado
- 19% cancelaram projetos domésticos
- Apenas 1% pretende ampliar investimentos dentro do país
Na prática, isso significa que quase ninguém vê a Alemanha como destino prioritário para novos aportes industriais no curto ou médio prazo.
Fábricas da VW na Alemanha
Os fatores
Segundo a presidente da VDA, Hildegard Müller, o problema é estrutural. Três fatores principais tornam a produção local cada vez menos competitiva: energia cara, burocracia/regulação e o efeito Trump.
Apesar de o governo do chanceler Friedrich Merz ter firmado um acordo para implementar um preço subsidiado da eletricidade para a indústria entre 2026 e 2028, a energia na Alemanha continua entre as mais caras do mundo.
O país promove uma ambiciosa transição energética que tem pesado diretamente nos custos de produção. Essa virada, conhecida como Energiewende, envolve desafios simultâneos: a Alemanha desligou suas usinas nucleares e avança no abandono do carvão antes de dispor de capacidade suficiente de geração de energia limpa para substituí-los. A maior parte da energia eólica é gerada no norte, enquanto os polos industriais se concentram no sul, o que exige novas linhas de transmissão — frequentemente atrasadas por licenciamentos ambientais e pela resistência de populações locais. Além disso, o gás russo, que funcionaria como plano B em períodos de pouco sol ou vento, deixou de ser importado desde o início da guerra na Ucrânia, forçando a compra de gás bem mais caro de outros fornecedores, com impacto direto sobre a economia e a conta de luz dos cidadãos.
Fábrica da BMW na Alemanha
Há também o excesso de burocracia que, para 90% das empresas, é o maior entrave operacional no país. Regras europeias sobre transparência da cadeia de suprimentos, metas climáticas rígidas e o vai-e-vém das normas para venda de veículos a combustão a partir de 2035 formam o que executivos descrevem como uma “camisa de força regulatória”. A VDA insiste numa maior flexibilidade das metas da UE para a transição aos veículos elétricos.
Para completar, veio o tarifaço de Trump. As taxas entre 15% e 25% sobre veículos produzidos na União Europeia tornaram, em alguns casos, mais barato produzir diretamente nos Estados Unidos do que exportar a partir da Alemanha.
— A Alemanha vive uma enorme crise como local de negócios — afirma Hildegard.
Fábricas da VW na Alemanha
Risco de extinção de 78 mil empregos
O esvaziamento industrial começa a aparecer com força no mercado de trabalho. Hoje, 49% das empresas automotivas alemãs estão cortando vagas no país, enquanto apenas 7% fazem o mesmo em suas operações no exterior.
Uma estimativa do Instituto de Economia Mundial (IfW Kiel), indica que até 78 mil empregos — cerca de 10% da força de trabalho automotiva alemã — podem ser extintos, com as operações migrando para a América do Norte e a Ásia até o fim de 2027.
Em novembro passado, o governo alemão informou em um relatório que o número de empregos na indústria automotiva alemã é o mais baixo desde 2011.
Fábrica da Mercedes-Benz na Alemanha
Produção local para mercados locais
Diante desse cenário, os grandes grupos já ajustam suas estratégias.
Depois de anos transferindo suas linhas da Alemanha para países do Leste da Europa, o Grupo Volkswagen agora está em discussões avançadas para produzir modelos da Audi nos EUA. Os principais candidatos são os elétricos Q4 e-tron, Q6 e-tron e Q8 e-tron. A ideia é utilizar a capacidade da fábrica da VW em Chattanooga (Tennessee) ou a nova unidade da Scout Motors na Carolina do Sul. Há também planos para transferir a produção do Audi Q5 do México para os EUA, caso as tarifas sobre produtos mexicanos também se tornem um obstáculo intransponível.
A BMW, que já tem sua maior fábrica global na Carolina do Sul, EUA, anunciou o aumento de turnos e da capacidade produtiva para modelos como o X5 e o X7, visando suprir a demanda interna e reduzir a dependência de sedãs importados da Europa.
Já a Mercedes-Benz confirmou que passará a montar o SUV GLC em sua linha de Tuscaloosa, Alabama. O início da produção está previsto para o final de 2027. Um dos modelos mais vendidos da marca nos EUA, o GLC hoje é produzido nas fábricas alemãs de Bremen e Sindelfingen.
Além da migração para os EUA, Volkswagen, BMW e Mercedes-Benz estão reforçando a lógica do “na China, para a China”. A aposta está na proximidade com o maior mercado automotivo do mundo, em custos mais baixos e em cadeias de fornecimento de baterias mais evoluídas.
O último Focus produzido na Alemanha (out 2025)
Há também quem simplesmente tenha decidido reduzir sua produção em escala mundial. É o caso da Ford, que já teve na Alemanha um de seus principais centros industriais, berço de sucessos como o Fiesta e o Focus. Hoje, a lendária Ford-Werke GmbH se limita a produzir o SUV elétrico Explorer EV e o crossover elétrico Capri EV, ambos vendendo muito aquém do esperado — enquanto veículos comerciais e modelos de maior volume são fabricados na Turquia e na Romênia.
RECOMENDADO PARA VOCÊ
Próximo esportivo da Porsche terá baterias no lugar do motor para manter equilíbrio dinâmico
Royal Enfield lança sua moto mais cara no Brasil, a Classic 650 Hypershift em edição limitada
Apostando em tradição, dona de Fiat e Citroën apela aos chineses para ter elétricos baratos
Flagra: novo Toyota SW4 aparece mais quadradão e deve estrear até 2028, após nova geração da Hilux
Renault quer acelerar eletrificação no Brasil e aposta em parceria com Geely
Acabou para o Jetta? VW venderá novo sedã médio Lamando L chinês feito em parceria com a SAIC
Dona de Fiat, Peugeot e Jeep cita eleição no Brasil e pode fechar fábricas