Maior parte da indústria automotiva já está parada. Mas o pior pode ser o que vem depois

AUTOMOTIVE BUSINESS - Opinião

Ao fim da primeira semana de março, após um primeiro bimestre fraco, os fabricantes de veículos no Brasil se preparavam para o esperado crescimento da vendas. A única preocupação demonstrada com a pandemia de coronavírus era a possibilidade da interrupção momentânea de fornecimento de peças importadas da China, onde a epidemia começou, o que eventualmente poderia paralisar algumas poucas linhas de produção e provocar falta de alguns modelos. Bastou apenas mais uma semana de contaminação galopante da Covid-19 para o cenário mudar drasticamente de otimismo moderado para tragédia anunciada.

Com certa dose de otimismo para não entregar os pontos, o governo reverteu a projeção de expansão do PIB brasileiro de 2% para zero. Especialistas já apontam para quedas de 0,7% a 1%. A indústria automotiva seguirá à reboque da crise.

O problema não é mais a provável falta de peças importadas – é possível até que elas sobrem agora. A doença está entre nós e, para mitigar sua disseminação seguindo orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e Ministério da Saúde, é necessário evitar aglomerações e com isso a partir desta semana quase toda a produção de motores e veículos leves e pesados foi suspensa no Brasil, em decisões que atingem mais de 30 fábricas e algo como 120 mil empregados diretos. Eles deverão continuar parados, em média, até o meio de abril – isso por enquanto, se o quadro da pandemia não se agravar. Ainda que a Covid-19 não representasse riscos aos funcionários, a parada de linhas seria necessária porque em breve não haverá mais para quem produzir, pela simples falta de consumidores.

A paralisação deve se estender para toda a cadeia do setor, tanto para trás, nos fornecedores de autopeças onde trabalham algo como 250 mil pessoas, quanto para frente, na rede de distribuição que emprega 328 mil funcionários em 7,1 mil concessionárias no País. Pode-se multiplicar algumas vezes o número de afetados ao se considerar a vasta teia de consumo que depende desses empregos.

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O fato é que o estrago na indústria já está feito, é grande e tende a crescer. As primeiras estimativas da consultoria Bright apontam para perda de produção em torno de 130 mil unidades a menos do tinha sido projetado para 2020, o que significa que este ano devem ser fabricados 2,67 milhões de veículos no Brasil, em queda de 4% sobre 2019. Isso reverteria a expectativa de crescimento, em torno de 9%, e interromperia o ciclo de expansão que vinha sendo repetido desde 2017.

Contudo, o quadro pode ser bem pior: as suspensões de atividades podem ser estendidas se os efeitos da pandemia não passarem até o fim do próximo mês, assim como é de se esperar queda avassaladora da demanda provocada pelo isolamento das pessoas, aumento de desemprego e falta geral de dinheiro e confiança no mercado. Afinal, quem em gozo de perfeito juízo pensa em comprar um carro ou caminhão no Brasil hoje? A crise, portanto, será tão longa quanto for a persistência de uma resposta negativa a esta pergunta.

O DESENHO DO DESASTRE

Olhando em perspectiva, sem produção nem receitas as empresas demitem ou deixam de pagar seus funcionários, que por sua vez param de comprar. Alguns analistas já avaliam que o nível de desemprego no Brasil, hoje em torno de 11%, pode avançar para 30% com a perda total de atividade dos atuais subempregados, quase 30 milhões de pessoas.

A evolução dessa tragédia está diretamente ligada a quanto tempo a Covid-19 vai continuar a afetar a produção e o mercado. A maioria aposta que abril será o pico do contágio no Brasil, mas ninguém consegue determinar esse período com precisão, nem o tamanho exato do legado deletério do período de contaminação e paralisação da produção. Na dúvida, muitos já falam em início da recuperação só no último trimestre do ano – sem tempo, portanto, para recuperar o que terá sido perdido.

Enquanto isso, a maior parte do mundo civilizado dá alguns bons exemplos de políticas anticíclicas para preservar empregos e renda. As duas maiores economias da União Europeia, Alemanha e França, já anunciaram reduções e diferimentos de bilhões de euros em impostos, vão assumir parte do pagamento de salários para conter a esperada onda de desemprego. Tudo para garantir o futuro depois que esta crise passar. Ou, como dizem líderes melhor preparados, após “esta guerra” passar. E passará, mas não sem pesadas baixas – por isso este é o momento de se preparar para o pior, fazendo o melhor.

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