Executivo acusa governo japonês de mantê-lo refém e promete "falar livremente com a imprensa" na próxima semana

Uma das situações mais polêmicas do ano foi a prisão de Carlos Ghosn, ex-CEO da Nissan, Renault, Mitsubishi e da respectiva aliança das fabricantes. O executivo, que tem cidadania brasileira, francesa e libanesa, estava em prisão domiciliar no Japão após ser acusado de desviar dinheiro da Nissan. Em uma reviravolta, Ghosn fugiu do Japão e está em Beirute (Líbano), onde divulgou um comunicado dizendo que está fugindo da "injustiça do sistema jurídico japonês".

Galeria: Carlos Ghosn foge do Japão

Ghosn foi acusado pela Nissan de fraude financeira e outros crimes, como ter declarado um salário menor do que o real e ter usado o dinheiro da empresa para coisas pessoais, como pagar viagens para sua família e amigos e até mesmo teria bancado seu segundo casamento. A acusação foi feita logo quando ele preparava terreno para uma fusão da marca japonesa com a Renault, o que levou a várias dúvidas sobre o verdadeiro motivo de sua prisão. Desde então, ele foi acusado pelos promotores japoneses de má-conduta financeira e mal-uso de recursos corporativos. Sempre negando ter feito algo errado, ele diz que o sistema jurídico do Japão estava sendo injusto com ele.

No comunicado abaixo, enviado pelo executivo para a imprensa, o executivo explica o que o levou a tomar a decisão de fugir do Japão:

"Agora estou no Líbano e não vou mais ser refém de um sistema judicial japonês fraudulento em que se presume culpa, a discriminação é galopante e os direitos humanos básicos são negados, em flagrante desrespeito às obrigações legais do Japão sob o direito internacional e tratados a que está deveria defender. Não fugi da justiça - escapei da injustiça e da perseguição política. Agora posso finalmente me comunicar livremente com a mídia e estou ansioso para começar na próxima semana."

 

Embora tenha sido levantada a hipótese de um acordo com a promotoria para resolver o caso, não foi o caso. Junichiro Hironaka, um dos advogados de Ghosn, deu uma entrevista à rede de TV japonesa NHK e disse que as ações de seu cliente são "imperdoáveis" e que estaria em posse dos três passaportes do executivo, como foi acordado quando a justiça permitiu que ele pagasse fiança para sair da prisão.

Além disso, os promotores tinham poucos motivos para fazer um acordo com Ghosn. A promotoria japonesa é conhecida por ter uma taxa de 99% de condenações, o que é um dos argumentos do executivo para acusar a justiça nipônica de ser fraudulento. Ghosn ainda diz que foi preso durante meses em uma cela totalmente fechada, em uma tentativa de forçar uma confissão. Se tivesse sido condenado, iria enfrentar uma pena de, no mínimo, 15 anos - o que, para alguém com 66 anos, significa que morreria na penitenciária.

Carlos Ghosn foge do Japão

E como ele conseguiu sair do país? O canal libanês MTV reporta um plano digno de cinema. Ghosn fez um jantar de gala em sua casa em Tóquio e contratou uma banda, que na verdade seria um grupo paramilitar disfarçado. O executivo entrou em uma das caixas de transporte dos instrumentos para deixar o prédio sem ser visto e deixou o Japão usando um aeroporto local. Ainda não se sabe como ele conseguiu enganar a segurança do aeroporto.

De lá, ele foi para a Turquia, onde pegou seu jatinho pessoal e foi para o Líbano, entrando com o seu passaporte francês. A NHK diz que uma fonte não-identificada da imigração libanesa teria visto uma pessoa parecida com Ghosn no aeroporto de Beirute, usando um passaporte francês com um nome diferente. O MTV ainda diz que uma fonte oficial confirmou que Ghosn se encontrou com General Michel Aoun, presidente do país, que teria oferecido proteção governamental.

Carlos Ghosn foge do Japão

Agora livre, Ghosn promete que irá se comunicar livremente com a imprensa a partir da semana que vem. O New York Times reporta que a casa em Beirute está sendo protegida com guardas armados (tanto privados quanto da polícia local) e que sua esposa, Carole Ghosn, também está no país. Ele espera que a mídia seja ainda mais feroz do que os promotores japoneses ao perguntar sobre as acusações.

O Japão só tem acordo de extradição com a Coreia do Sul e os Estados Unidos, então o executivo pode se considerar livre, pois só voltaria para a prisão caso decida entregar-se para as autoridades japonesas.