Mais voltado para a simulação, segundo game da série resolve alguns problemas

Project Cars nasceu como uma ideia bem audaciosa. A desenvolvedora Slightly Mad Studios (SMS) foi criando o jogo com o financiamento de sua comunidade, aproveitando que já era conhecida por outros games de corrida como Need for Speed: Shift e Test Drive: Ferrari Racing Legends. Chamou a atenção pela qualidade gráfica e foco na física mais realista do que Gran Turismo e Forza Motorsport. Teve seus problemas, já que era praticamente impossível jogar com um controle (precisava do volante), o modo carreira foi mal pensado e era assolado por bugs e glitches (falhas de programação). Project Cars 2 resolve boa parte dos defeitos e tem tudo para tornar-se um dos grandes games do gênero, a ponto de incomodar muito a concorrência.

Em números, Project Cars 2 não é tão impressionante assim. São 121 pistas (contando suas variações) e 182 carros (sem contar os que serão lançados via download), uma mera fração dos 700 carros e 200 trajetos do Forza Motorsport 7. Porém, ao invés de apostar em um número robusto, tiveram o cuidado de ter uma seleção bem feita. O foco do game é no automobilismo e isso reflete na lista de veículos, formada em grande parte por modelos como da categoria GT3. Tem poucos modelos de rua. Bons circuitos não faltam, desde velhos conhecidos como Brands Hatch como adições mais impressionantes como Indy 500.

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Temos a chance de aproveitar tudo. Após o decepcionante modo carreira do primeiro jogo, a SMS foi mais cuidadosa e agora entregou uma experiência que faz mais sentido. Criamos um piloto e, logo em seguida, escolhemos qual será a primeira série que irá competir. Pode começar a vida no automobilismo pelo kart, por campeonatos com hatchs como a Clio Cup ou o campeonato com Ginettas, como é feito na Inglaterra. Bons resultados abrem novas possibilidades, desde disputas com supercarros ou monopostos até eventos especiais das fabricantes.

Embora seja bonito, está um pouco pior em relação ao jogo anterior, por sacrificar a qualidade gráfica pelo processamento de algumas funções. Não quer dizer que seja mal feito. Continua impressionante, principalmente quando usa as condições climáticas e passagem de tempo dinâmicas. Ver a chuva começando aos poucos e o sol descendo é um show à parte, melhorando pelos carros bem feitos. Mesmo em um PS4 comum (o Pro roda em 4k), como o usado para a avaliação, ainda é digno de nota.

Project Cars 2

Roda acima dos 30 quadros por segundo nos videogames normais, chegando na casa dos 48 fps. Se usar um PS4 Pro ou Xbox One X, beira os 60 fps. Os gráficos têm alguns glitches, como a pista sumir, ou o cenário ficar transparente. Texturas são boas no geral, embora possam mostrar seus defeitos ao olhar com cuidado no modo de fotos. Os replays rodam a 30 fps travados, o que não é ruim já que muitos games fazem o mesmo, só que faltam recursos como motion blur (embaço da imagem em movimento). É mais bonito em um PC potente, chegando a resoluções como 12K.

Realidade em foco

O que torna Project Cars 2 tão interessante é seu apego à autenticidade. Começa mesmo antes de correr, com regras separadas para cada campeonato, baseadas nas normas das categorias reais. Só isso já é o suficiente para tornar uma disputa diferente da outra não só pelo carros ou pelas pistas. Serve também para uma jogatina rápida ou para o modo online, basta selecionar o conjunto de regras.

Correr aqui não é tão simples e rápido quanto nos demais jogos. Uma corrida envolve também uma sessão de treinos e outra de classificação, para então partir para a disputa. Considerando que há pistas que aparecem somente no Project Cars 2, é bom praticar antes de partir para a briga. Claro, é possível escolher pular os dois. No entanto, não recomendo por causa de outra novidade do game, o LiveTrack 3.0.

Project Cars 2

Em uma corrida normal, a pista vai mudando aos poucos e é raro um game conseguir replicar isso. Project Cars 2 consegue graças ao LiveTrack 3.0. O asfalto vai ficando emborrachado no traçado usado pelos pilotos e sujo dos lados, enquanto a temperatura muda de acordo com a maneira como o sol está batendo no solo. Tudo isso aparece no jogo. Podemos até ver o traçado secando após uma chuva, enquanto a parte da pista onde os pilotos normalmente não passam continua molhada.

Essas mudanças não são só estéticas, pois este é um dos poucos jogos que simulam todas as nuances da aderência dos pneus, como a condição da pista e a temperatura, tanto do solo quanto dos pneus. Passar por uma poça d’água, por exemplo, pode causar aquaplanagem e, se não tomar cuidado, perda de controle. Por isso é bom passar pelo período de testes e de classificação, pois o traçado ficará emborrachado aos poucos e essa mudança é passada para as diferentes sessões.

Project Cars 2

Essa preocupação com a realidade aparece de outras formas. Há uma pequena adição que deveria estar em todos os jogos de simulação, que é a de deixar as assistências de condução no modo autêntico. Isso faz com que ele replique o modelo da vida real. Se um carro possui controle de estabilidade ou ABS, eles estarão lá. Porém, se o carro vem pelado, prepara-se para treinar muito para segurar a máquina.

Abraçar a vida de simulador é importante, pois o Project 2 almeja ser um dos principais games de eSports envolvendo corridas. Cada jogador começa sua vida online classificado como U1500. O U é de unlicensed (sem licença) para subir aos poucos até a categoria S, enquanto a numeração é sua habilidade. Vários fatores afetam isso, desde se você dirige de forma limpa sem cometer infrações até sua posição final na corrida. Ajuda a separar quem encara a disputa com seriedade de quem faz as curvas usando os outros como barreira.

Project Cars 2

Muito mais jogável

Para quem jogou o primeiro game nos consoles sabe o quão ele é difícil. Não pela física, mas sim pela falta de cuidado da SMS para ajustar os comandos pelo controle e, em alguns momentos, pelo volante. Era necessário gastar muito tempo mexendo nas configurações para ajustar a resposta. E, pior ainda, bastava mudar de carro para descobrir que os ajustes tinham se tornado inúteis.

Project Cars 2 é muito melhor neste ponto. Para quem tem um volante decente, a diversão é garantida, transmitindo bem cada sensação da pista, como passar por cima da zebra. Poderia ser um pouco melhor, já que falta um pouco de peso em comparação com alguns simuladores mais robustos, como o iRacing, mesmo ajustando o Force Feedback. Por outro lado, ainda está acima de Forza e Gran Turismo.

Project Cars 2
Project Cars 2

Se você não tem um volante, não tem problema. Não é ruim como era no primeiro jogo e dá para encarar as corridas. Fica melhor com alguns ajustes, tanto na disposição dos botões quanto na resposta (recomendo que use as opções deste vídeo). Quando conseguir deixar todas as opções da forma ideal para você, pode ter certeza que conseguirá disputar com quem está usando um volante.

Cada carro transmite sua sensação ao correr. Veículos de rua são mais fáceis de usar, enquanto os carros de corrida não perdoam erros. Se deixar todos os assistentes ligados, acaba mexendo um pouco com a dinâmica. O Toyota GT86, por exemplo, começa a sair de frente e sempre segura a traseira, o que não é normal para o pequeno esportivo que quer fazer drift a qualquer acelerada. Por isso, o ideal é usar a opção de deixar os assistentes de acordo com o real.

Problemas na liderança

Havia pressa para chegar às lojas antes de Forza Motorsport 7 e Gran Turismo Sport, ambos lançados no espaço de um mês depois do Project Cars 2. Essa corrida para estar antes nas prateleiras fez com que o jogo chegasse com vários bugs e glitches. Seria normal, se alguns deles não fossem sérios a ponto de estragar a jogatina em alguns casos.

Correr na chuva ou na neve, por exemplo, era uma roleta russa. Alguns carros simplesmente não conseguiam encontrar tração alguma nestas condições, mesmo com os pneus adequados e acelerando menos. Só que um rival controlado pelo PC com o mesmo veículo corria normalmente. Foi resolvido com uma atualização quase um mês depois do lançamento.

Outro defeito que desanimou quem adquiriu o jogo no lançamento era na classificação. Após marcar um bom tempo, podemos escolher uma opção de acelerar o tempo ao invés de esperar pelo fim da sessão. Porém, ao fazer isso, os carros rivais começavam a marcar tempos melhores do que o seu, mesmo que o tempo restante para o fim do treino não fosse o suficiente para completar uma volta. O que incomoda é que este era um bug que já tinha aparecido no primeiro jogo e que voltou na continuação.

O modo online tem seus problemas. No momento, só é possível disputar partidas simples, com até 16 jogadores e que podem correr em categorias diferentes (cada um com sua pontuação). Infelizmente, o sistema de campeonatos online ainda não está disponível e a desenvolvedora promete lançar posteriormente via download. Os servidores ainda estão instáveis, causando lag quando um jogador entra na partida durante os treinos ou até mesmo na classificação. Para piorar, muita gente relata casos de queda da partida e, se o jogador que criou a corrida desconectar, todos os que estavam disputando são punidos de forma severa.

Veredito

Project Cars 2 ainda não é para todo mundo. Mais técnico do que Forza ou Gran Turismo, vai encontrar seu público entre os entusiastas e quem gosta de um bom desafio. Está muito mais acessível do que o anterior e precisa observar mais os rivais para uma continuação. E, mais do que isso, tomar mais cuidado para evitar que o jogo chegue às lojas com problemas demais.

É como participar de track days. Exige paciência e tempo para dominar. Se gastar esse tempo, irá encontrar um ótimo game com situações únicas que vão arrancar sorrisos. Uma das corridas que fiz em Spa-Francorchamps, com uma chuva que apareceu no último momento e que transformou a disputa em um caos, está entre os melhores momentos que já tive nos simuladores. Pode ainda não ser capaz de te fazer escolhê-lo ao invés da concorrência, mas já tem qualidades suficientes para que o leve também para casa.

Imagens: Divulgação e Motor1.com

Project Cars 2