O investimento nas operações brasileiras, por outro lado, foi de US$ 11,8 bilhões. Contrassenso?

Muito se fala nos lucros altíssimos que a indústria automotiva instalada no Brasil tem todos os anos. Mas uma reportagem do Estadão, feita por Cleide Silva, mostra que, no ao passado, as remessas de lucro para as matrizes caíram 215%, ficando em US$ 86 milhões. E isso comparado a um ano que já havia sido ruim. Em 2015, as fabricantes mandaram US$ 271 milhões ao exterior. Em seu melhor ano, 2008, elas enviaram US$ 5,614 bilhões. E quase repetiram a dose em 2011, US$ 5,581 bilhões. O paradoxo é que elas receberam US$ 11,8 bilhões em investimentos no ano passado. Mas a explicação é simples.

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Primeiro, é mais barato pegar empréstimo no exterior do que no Brasil, por conta de nossas taxas de juros. Deste modo, as filiais brasileiras pegaram dinheiro com as matrizes para continuar a lançar novos produtos, investir em pesquisa e desenvolvimento e ampliar suas capacidades produtivas, como mostra a nova fábrica de motores da Toyota.

Segundo, apesar de a coisa ter sido muito feia para nossa economia em 2016, o Brasil ainda é um mercado importante. Crescemos aos soluços, mas os períodos de bonança podem ser muito lucrativos, como mostram as duas maiores remessas de lucros ao exterior. US$ 5 bilhões ajudam muitos balanços a ficarem no azul. Fora que, de 2006 a 2013, as remessas sempre ficaram acima da casa de US$ 1 bilhão.

No mercado financeiro, fala-se que são as crises que oferecem as melhores possibilidades de lucros. Com competidores combalidos, é tempo de avançar sobre novos mercados, como mostraram Hyundai e Toyota ao acabarem com a máxima das 4 Grandes em 2016. Quando o mercado voltar a crescer, algo que a Anfavea já prevê para este ano, quem está em posição mais confortável sai em vantagem.

Por fim, o resultado ruim não ajuda na defesa das fabricantes quando o assunto são os lucros excessivos. Enquanto no exterior todas elas têm de mostrar balanços e divulgar resultados, que tornam as composições de preços dos automóveis mais claras, elas são todas companhias fechadas no Brasil, sem ações em bolsas nacionais e com seus acionistas todos no exterior. Em entrevista ao jornalista Joel Leite, da Agência AutoInforme, o ex-ministro Delfim Netto trata do assunto. E reafirma: carro no Brasil custa caro por oferecer uma taxa de retorno muito mais alta e também por ineficiências produtivas e estruturais. Confira a entrevista abaixo.

 

 

 

Termos notas fiscais que mostram a carga tributária incidente em cada produto que compramos é um passo importante para que esse nó se desate. O problema é que ele só ajuda àqueles que estão atentos à quantidade de impostos que pagam. Sem isso, as notas viram apenas mais um papel para amassar no fim do dia. Com a noção do quanto se paga de imposto, cai a desculpa de que tudo é caro apenas por culpa deles. E podemos ficar de olho aos demais detalhes que impõem aos brasileiros produtos muito mais caros do que os vendidos no exterior. Entre os quais os carros certamente estão incluídos, para nossa tristeza...

Fonte: Cleide Silva, do Estadão, e Agência AutoInforme

Fotos: divulgação