Aventura: Discovery Sport versus gelo na Islândia - parte 2

Amanhece no interior da Islândia. Como costuma acontecer no inverno daqui (quase no Polo Norte), o raiar do dia não costuma vir acompanhado do Sol, que só dá as caras lá pelas 10h30. São 7h da "madrugada" e a escuridão só é quebrada pelos faróis de xenônio do comboio de Discovery Sport que nos espera. O vento gelado e a chuva fazem a sensação térmica ser bem mais arrepiante que os -2º C indicados no termômetro do nosso carro.
Aventura: Discovery Sport versus gelo na Islândia - parte 2
Nosso Discovery hoje é da versão diesel, com o mesmo motor 2.2 SD4 que acaba de chegar ao Brasil sob o capô do Evoque, mantendo a transmissão automática de nove marchas e a tração integral com distribuição eletrônica de torque. A versão de acabamento é mesma HSE do carro a gasolina, mas com diferentes equipamentos - não há bancos aquecidos e nem a nova central multimídia, por exemplo. Pelo rádio, a equipe da organização do evento nos informa que a nevasca da noite anterior atingiu em cheio nossa rota prevista e, portanto, teremos de fazer outro caminho. Mesmo assim, por precaução, seguiríamos em comboio por conta do piso escorregadio (gelo) e da baixa condição de visibilidade.
Aventura: Discovery Sport versus gelo na Islândia - parte 2
Assim como no dia anterior, nosso carro está equipado com pneus especiais para neve, que aumentam sobremaneira a aderência. Mesmo com toda a eletrônica disponível no Discovery Sport (tração integral com modos de condução, controle de estabilidade e controle de descida), é fundamental ter esse tipo de solado para rodar num ambiente assim. O grupo parte e, em baixa velocidade, fica impossível não observar como esse lugar é inóspito. Não tivéssemos o apoio da Land Rover, com seus Defender equipados com pás de tirar gelo da pista, sair dali seria uma missão praticamente impossível. Com a estrada limpa, porém, o Sport desfila como se tivesse numa passarela - uma escorregada ali, uma patinada aqui, mas sempre com sensação de controle.
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Interessante também como a visibilidade deixa de ser um problema quando para de nevar, e a neve se torna uma aliada. Os blocos brancos nas laterais da pista refletem as luzes dos faróis, fazendo-lhes parecer mais fortes do que realmente são. Outra coisa bacana é que o Sport vem com facho alto automático, ou seja, ele acende a luz alta sozinho quando a condição de luz fica precária, baixando assim que encontra um carro à frente ou vindo no sentido contrário, para não ofuscar o outro motorista.
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Surge uma descida mais íngreme e o instrutor parado em frente do obstáculo (sim, o cara tava tomando vento gelado e chuva!) faz sinal para pararmos. "Liguem o controle de descida, com velocidade bem baixa", orienta. Além de ter o HDC (Hill Descent Control), você pode ajustar a velocidade que o carro vai manter na ladeira, dependendo do ângulo da descida ou do piso. No caso, era mais por conta do gelo no chão. Começamos a descer e logo ouvimos as "pinçadas" que o sistema dá nos freios (cada roda de forma independente), para manter a velocidade controlada e o carro sem escorregar. Outra ajuda que estamos usando é o sistema Terrain Response, já conhecido dos Land Rovers, mas que nesse carro ganhou uma nova geração três vezes mais rápida, informa a marca.
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Por meio de botões no console central, escolhemos o modo neve (pisos escorregadios) do Terrain Response e o sistema ajusta automaticamente a melhor entrega de torque do motor, a marcha mais adequada e a distribuição de torque para as rodas. Sim, fazer off-road está cada vez mais fácil, e a segurança que o Discovery Sport transmite nesse verdadeiro rinque de patinação é digna de impressionar. Reduzida? Nem precisa. Em caso de necessidade de força extra, a primeira das nove marchas já é bastante curta e pode ser explorada para subir pirambeiras.
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Torque, aliás, é o que não falta ao ótimo propulsor 2.2 a diesel. São 42,8 kgfm entregues em sua totalidade a 1.750 rpm, e ainda com saudáveis 190 cv de potência para aproveitar em giros mais elevados. Em geral acho que SUVs de verdade combinam mais com motor a óleo e, apesar de ter gostado do 2.0 turbo a gasolina (240 cv e 34,7 kgfm), eu optaria por este 2.2 a diesel caso comprasse um Discovery Sport. Além da força exuberante em baixa, o propulsor se revelou extremamente silencioso e suave no funcionamento, nem de longe lembrando aquele barulho de castanholas. Dá para dizer até que só sabíamos que estávamos no carro a diesel por conta da faixa vermelha do conta-giros, que começa antes do que no modelo a gasolina.
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As condições climáticas melhoram e, na parada para troca de motoristas (foram dois jornalistas por carro), o comboio se desfaz. A estrada à frente está limpinha e então podemos explorar um pouco mais do Discovery dinamicamente. Como era de esperar, velocidades elevadas não causam nenhum distúrbio em termos de ruídos de rodagem ou de vento. O Sport tem uma carroceria bastante aerodinâmica para um SUV, com Cx de apenas 0,36, além de o isolamento acústico ser de primeira. Como observamos no modelo a gasolina, a Land Rover parece ter trabalhado muito bem no acerto de suspensão do Discovery Sport, com a adoção de batentes hidráulicos nos amortecedores (para evitar batidas secas) e também amortecedores magnéticos, que variam automaticamente sua rigidez conforme o piso e o tipo de condução. Não deu para entrar forte nas curvas, até porque a aderência dos pneus ia embora antes que a carroceria começasse a inclinar, mas a sensação é de um SUV bem mais "carlike" do que o antecessor Freelander.
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Essa impressão é reforçada pela posição de dirigir, agora mais baixa e esportiva, e também pela direção elétrica mais rápida e precisa nas manobras (ainda que um pouco vaga nas sensações). No conjunto da obra, temos um carro mais "na mão" e ainda assim mais confortável que o Freelander, com vantagens não somente na estabilidade como também na absorção de impactos. Fora isso, o Discovery Sport supera o antecessor em 9 cm no comprimento, oferecendo amplo espaço para até quatro adultos e uma criança. Há também versões com dois bancos no porta-malas (5+2), que serão as vendidas no Brasil, mas não tivemos contato com elas.
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Sacada da Land Rover foi fazer o banco traseiro deslizante em 16 cm, de modo que você pode variar o espaço entre passageiros e bagagens - o porta-malas tem capacidade de 454 a 541 litros na versão de cinco lugares. Outra boa notícia para os ocupantes de trás é que o banco fica 5 cm mais alto que os da frente, formando uma espécie de "arquibancada", sem falar no ajuste de inclinação do encosto e do assoalho quase plano. Por fim, vale investir no teto panorâmico de vidro, que deverá ser oferecido no Brasil nas versões mais caras.
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Por falar em versões, a marca ainda não detalhou quais serão as configurações de equipamentos para nosso mercado. Estima-se que o preço já divulgado pela empresa, de R$ 179.900, seja para o Discovery Sport S (que ficaria no lugar do Freelander de entrada, hoje vendido a pouco mais de R$ 160 mil), sendo que os demais modelos deverão superar a barreira dos R$ 200 mil. Briga com o Evoque? Acreditamos que pode haver uma certa canibalização entre eles, mas a proposta do Discovery é mais familiar e menos esportiva, mais off-road e menos ostentação. Por mais que o novo Sport seja bem acabado, ele não tem o refinamento do "baby" Range Rover, diminuindo a chance de sobreposição com o Evoque. A intenção da Land Rover é fazer frente aos novos Jeep Cherokee e Kia Sorento, e ainda conquistar clientes das versões mais caras do Toyota SW4 e do Chevrolet Trailblazer. A chegada do Discovery Sport importado deve acontecer em maio, enquanto a produção no Brasil começará em 2016 na nova fábrica que a marca está construindo em Itatiaia (RJ).
Aventura: Discovery Sport versus gelo na Islândia - parte 2
Enquanto meu colega de test-drive dirige, aproveito para reparar nos detalhes. Como comentei acima, o Sport faz boa figura internamente, mas não transmite o mesmo glamour do Evoque. Os materiais são macios ao toque e o layout interno é bem distribuído, porém, sem luxos como o painel revestido de couro, por exemplo. Temos um volante exclusivo, de boa pegada, e um console central bastante "clean". Já o quadro de instrumentos é basicamente o mesmo do Evoque, assim como o seletor giratório do câmbio, que ainda divide opiniões pela (falta de) praticidade. E a central multimídia? É o seguinte: a Land Rover fez um novo sistema, com tela de resolução bem melhor e um software muito mais rápido e fácil de usar, só que ele está disponível apenas nos modelos mais simples. A explicação é que a central antiga, mantida nas versões de topo, suporta mais periféricos, como as telas traseiras colocadas nos encostos de cabeça - recurso que a marca ainda está desenvolvendo para a central nova. Uma pena é que a central antiga é lenta e bem mais confusa de usar, ou seja, é melhor ficar com a nova simplificada mesmo.
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Saímos à esquerda para uma estradinha de terra e logo encontramos alguns carros parados à frente, com um instrutor ao lado. O desafio agora é atravessar um rio de degelo com fundo de pedras, uma oportunidade para conferirmos a função off-road do sistema multimídia, que mede a profundidade para ver se o carro passa - o limite de travessia do Discovery Sport é de 600 mm de água. Como o rio está baixo hoje, o único cuidado que temos de tomar é na entrada do obstáculo, pois há um degrau e precisamos ir devagar para não bater o para-choque dianteiro. O carro dá uma leve escorregada para o lado e levanta a traseira, tirando a roda esquerda de trás do chão, mas logo já estamos na água e a passamos sem qualquer problema. A altura livre do solo de 212 mm é uma das mais amplas da categoria, e suficiente para nenhuma pedra raspar embaixo.
Aventura: Discovery Sport versus gelo na Islândia - parte 2
O melhor da festa, entretanto, ficou para o fim. Devido à nevasca da noite anterior, o trecho off-road estava com bastante neve fofa, o que me fez passar o câmbio para o modo esportivo e convocar as borboletas para trocas manuais. Daí foi só acelerar e brincar de WRC (mundial de rali) com o jipão escorregando de lado e superando os facões formados no piso, novamente com a ajuda do Terrain Response, só para coroar a ótima performance do carro nas mais variadas situações. Neve é um obstáculo que dificilmente o novo Land Rover terá de enfrentar em terras brasileiras, mas, assim como fez o Evoque, o Discovery Sport pode congelar as vendas da concorrência... Por Daniel Messeder, de Reykjavik (Islândia) Fotos: Divulgação e autor Viagem a convite da Land Rover

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Aventura: Discovery Sport versus gelo na Islândia - parte 2

Foto de: Daniel Messeder