Carros natimortos, capítulo II: projetos abortados antes de chegar às ruas

Carros natimortos, capítulo II: projetos abortados antes de chegar às ruas
Quando publicamos a reportagem sobre os carros natimortos, ano passado, nem a gente imaginava que o assunto rendesse tanto. Pois aquele post foi um dos dez mais lidos do CARPLACE durante o ano de 2013. Este sucesso nos levou a pesquisar com as montadoras e colecionadores para encontrar mais dez casos de projetos abortados antes de chegar às ruas. Recuperamos histórias mais antigas, como o Gol da Ford dos anos 1990, até casos recentes, como o Evoque conversível. Abordamos também o misterioso caso do Lotus brasileiro, um sedã com visual copiado da Volvo e uma história pra lá de suspeita... Por fim, agora que sabemos do potencial deste tipo de matéria, deixamos desde já o convite para sua participação nos ajudando a lembrar de mais casos semelhantes. Quem sabe não rola um capítulo III? Se você não viu o primeiro capítulo, confira clicando aqui! "Gol" da Ford Quando o mercado brasileiro se preparava para a chegada de um novo VW Gol, o "bolinha" de 1994, nos corredores da Autolatina (a joint-venture formada por Volkswagen e Ford na época) já se trabalhava na versão Ford do modelo. Isso mesmo, a marca do oval azul teria um novo compacto que usaria plataforma, mecânica e carroceria do Gol, mas com detalhes visuais diferentes. Para tanto, a Ford enviou o protótipo para ser desenvolvido no estúdio Ghia, na Itália. O hatch, ainda sem nome, chegaria às lojas no final de 1995.
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Um dos pilares da Autolatina, surgida em 1987, era o compartilhamento de plataformas e motores. Daí nasceram, por exemplo, Santana e Versailles, Verona e Apolo, Escort e Pointer, e assim por diante. Reza a lenda, porém, que quando chegou a vez de compartilhar o projeto do campeão de vendas Gol, a VW não concordou. Há quem aponte, inclusive, que isso foi o estopim para a dissolução da Autolatina. E o Gol da Ford, mostrado aqui na fase de clay (modelo de argila) e na projeção do site "irmaododecio" que abre esta reportagem, ficou apenas na fase de projeto. Novo BMW Série 8 Mostrado como conceito em 2008, o BMW CS foi apresentado como prévia do estilo que a marca adotaria nos próximos anos. Mas na verdade estava ali uma ideia para ressuscitar o antigo Série 8, desta vez com um cupê de quatro portas. O carro usaria a plataforma do sedã Série 7 e motores 6.0 V12 e 5.0 V10 nas versões 860i e 850i, respectivamente. O projeto não foi pra frente e o Série 8 segue suspenso, mas nem tudo foi perdido: parte das linhas do CS pode ser vista no atual Série 6 Gran Coupé, a resposta da BMW contra Mercedes CLS, Audi A7 e Porsche Panamera.
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Ford Ecosport picape O projeto Amazon, que originou o Fiesta 2002 e o primeiro Ecosport, tinha mais um membro em sua formação original: era a picape do Eco, que substituiria a já antiga Courier e se diferenciaria da concorrência justamente pelo porte superior, por ser derivada do SUV e não mais do Fiesta. A força das rivais, porém, fez a Ford tirar o pé do projeto. O marketing da marca entendeu que seria dinheiro demais gasto num modelo para ser vendido somente no Brasil, e que teria de enfrentar o domínio da Fiat com a Strada e da VW com a Saveiro no segmento. Uma pena, pois hoje o que a Strada mais tenta é ser uma picape mais parruda do que ela realmente é.
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Trabant NT O famoso carrinho da Alemanha oriental deixou saudades em tanta gente que, em 2009, a fabricante de brinquedos Herpa exibiu um conceito do que seria um Trabant modernizado, durante o Salão de Frankfurt. Chamado de Trabant NT (Novo Trabant), o modelo tinha 3,95 m de comprimento, 1,69 m de largura e 1,50 m de altura, com entreeixos de 2,45 m - medidas bem mais generosas que as do Trabant original.
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Mas sua grande sacada era trazer um propulsor elétrico no lugar do fumacento motor dois-tempos a combustão do antigo Trabi. Com 63 cv e baterias de íon de lítio, seria capaz de levar o NT a 130 km/h de velocidade máxima e garantir uma autonomia de até 160 km, com recarga de oito horas. Segundo a Herpa, a intenção ao apresentar o Trabant NT era encontrar algum interessado em investir no desenvolvimento do carrinho, para ser lançado em 2012 na Europa. Uma esperança que, como sabemos agora, não se concretizou. VW Santana hatch O Santana nacional não era nada mais que a segunda geração do VW Passat alemão, mas por aqui a Volkswagen preferiu apostar somente na versão sedã e na perua (Quantum). A marca, porém, chegou a testar no Brasil o Santana hatch de duas portas (como mostra este flagra da revista Quatro Rodas de 1986) para o lugar do Passat brasileiro, fabricado até 1988. A VW só voltaria a ter um hatch médio com a chegada do Pointer, irmão de projeto do Logus, em 1993.
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Bugatti Galibier Concebido para ser uma opção mais luxuosa e exclusiva ao Porsche Panamera, o Galibier foi apresentado como conceito no Salão de Frankfurt de 2009. Na época, a Bugatti chegou chegou a declarar que esperava vender entre 1.000 e 1.500 exemplares do supercupê ao preço de 1 milhão de euros cada.
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Com nada discretos 5,3 metros de comprimento e 1.900 kg de peso, o Gabilier usaria um motor 8.0 litros W16 com 1.001 cv de potência. Em outras palavras, seria um verdadeiro iate para usar no asfalto. Infelizmente, tempos depois, a marca declarou que o modelo não passaria da fase de conceito. Isso porque, do ponto de vista financeiro, não daria para desenvolver o cupêzão e ainda a próxima geração do Veyron ao mesmo tempo. Ford Fiesta SW A imagem deste protótipo de uma perua aventureira feita sobre a base do Fiesta Mk5, no final dos anos 1990, mostra que a Ford já tinha planos para um modelo nos moldes do Fiat Palio Adventure bem antes do EcoSport. Como podemos observar pela foto, a perua tinha como ponto de partida o Fiesta Sedan daquela geração (repare nas lanternas e no balanço traseiro alongado), mas inovava pelo teto elevado e pelo amplo espaço para bagagens. Fora isso, ela trazia proteção plástica nas partes inferiores da carroceria e suspensão ligeiramente elevada. A perua Fiesta não foi à frente, mas certamente ajudou na decisão de aprovar o primeiro EcoSport.
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Emme Lotus Em 1996 começaram a brotar boatos sobre um modelo que a Lotus estaria desenvolvendo no Brasil, para fabricação em Pindamonhangaba (SP). Um ano depois, era apresentado o Emme Lotus durante o Brasil Motor Show - evento realizado antigamente nos anos em que não havia Salão do Automóvel. Era um sedã grande (do porte do Omega) que trazia, na versão topo-de-linha 422T, um motor Lotus 910: era um 2.2 turbo de 264 cv que equipou o cupê Esprit na década de 1980. A fabricante nacional Megastar, responsável pelo Emme Lotus, anunciava investimentos de 200 milhões de dólares para fazer o sedã mais rápido do mundo em sua categoria: velocidade máxima de 273 km/h e aceleração de 0 a 100 km/h em 5,0 segundos.
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Tudo, porém, não passou de um sonho - que se tornaria um pesadelo para as poucas dezenas de proprietários que acreditaram na promessa de ter um Lotus brasileiro. O Emme Lotus era um desastre: a carroceria de polímero de plástico não tinha o mínimo de tolerância dimensional (a peça de uma unidade não encaixava em outra!), o acabamento era sofrível e o desempenho ficava muito longe do prometido, uma vez que o sedã era muito mais pesado do que previa o projeto e o câmbio tinha relações longas. Mas o pior é que, após o fim da produção com alta do dólar em 1999, algumas verdades vieram à tona: a principal delas dava conta de que a Lotus não teve a mínima ligação com o projeto. A Megastar havia apenas comprado os motores de refugo do Esprit, que estavam largados na fábrica inglesa. Ou seja, de cada dez motores importados, apenas dois funcionavam perfeitamente. Sobre o investimento, menos de 10% do dinheiro anunciado foi realmente aplicado na produção do interior paulista. Já o design era uma cópia descarada do conceito Volvo EEC, de 1992, que mais tarde daria origem ao Volvo S80. Em resumo, uma vergonha nacional. Range Rover Evoque Cabrio A belíssima versão conversível do Evoque causou furor ao ser apresentada, como conceito, no Salão de Genebra de 2013. Mas, depois de feitas as contas pelo grupo indiano que administra a Land Rover, foi decidido que o modelo não vai passar de um exercício de design. Segundo a marca, o investimento necessário para adaptar a linha de montagem e também a estrutura do Evoque não compensaria financeiramente
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Ainda assim, a Land Rover estuda uma solução intermediária: uma versão com teto panorâmico de grandes dimensões, com cobertura de tecido (como no Fiat 500C) pode ser oferecida nos próximos anos. Quem sonhava com um Evoque totalmente sem capota, porém, terá de se contentar com estas imagens ou fazer uma oferta milionária à marca para levar este conceito para casa! Dodge Trazo C Apresentado pela Chrysler durante o Salão de São Paulo de 2008, o Trazo era simplesmente um Nissan Tiida Sedan que seria vendido em países do Mercosul com a marca Dodge. Uma das novidades era a versão flex do motor 1.8 16V, que ainda não havia sido apresentada pela própria Nissan para o Tiida nem para a Livina.
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Mas alguém na Chrysler teve a (sensata) visão de que o pacato sedã fabricado no México não tinha nada a ver com os conceitos da Dodge, e cancelou o projeto antes que ele chegasse às lojas. Imagine a confusão que seria, hoje, ter um Nissan da Dodge agora que a Chrysler está nas nas mãos da Fiat. Ainda bem que não rolou, né? Galeria: carros natimortos, capítulo II

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Foto de: Daniel Messeder