Matéria CARPLACE: Quando a educação depende de educação

Estar propenso a um desastre automobilístico é um triste dado com o qual o povo brasileiro convive faz anos. E quando os fins de semana prolongados se aproximam, não é preciso citar o que fatalmente será a manchete principal dos jornais do dia seguinte. Como se não bastasse a forma branda com que a lei trata os infratores, os próprios transferem sua culpa para as mínimas condições das vias e para a ausência de sinalização quando autuados por seus deslizes, o que em parte pode ser verdade. Não ajuda em nada reclamar da ineficiência de nossa educação quando, comumente, questiona-se o excesso de disciplinas exigidas pelo Ministério da Educação. É só parar para raciocinar o quanto contraditória e constrangedora é a situação na qual nos encontramos. Verdadeiras aberrações são escritas e faladas diariamente, quando a língua portuguesa é estudada por anos a fio. Para agravar a situação, o nosso código de trânsito prevê pouco mais de vinte horas de prática para que alguém passe a conduzir um automóvel. Em vista disso, como esperar que essas pessoas estejam aptas a respeitar as leis quando, em grande parte das vezes, sequer têm consciência de sua existência? Pior, esses cidadãos guiam seus veículos com a certeza de que, caso venham a infringir a lei, seja de que forma for, irão unicamente pagar multa ou fiança e continuar em liberdade. É justamente essa sensação de impunidade, aliada à fiscalização ineficaz, que contribui para que acidentes venham a ocorrer com mais frequência. A culpa não é só do governo, não adianta argumentar. Ela é de todos. Educação não é algo que só se aprende na escola. A pessoa com um mínimo de noção de cidadania sabe que não é correto, por exemplo, jogar lixo nas vias públicas. O que falar sobre a horrenda maneira agressiva de conduzir um carro? Seria hilária, caso não fosse séria, a triste constatação de que queremos estradas melhores sem que nos importemos com outros aspectos necessários. Como, então, cobrar das autoridades o respeito devido, já que os impostos pagos anualmente para a manutenção das estradas sequer são usados para tanto, se não fazemos nosso papel enquanto cidadãos “corretos” (?) que afirmamos ser. Que tal as autobahns, famosas e maravilhosas estradas alemãs? Brincadeira, lá, desde muito pequenos, os cidadãos recebem orientação de como se portarem nas ruas assim como são conhecedores das regras para quando atingirem a idade adulta conduzirem seus próprios veículos. Por falar em Alemanha, algo provavelmente impensável no Brasil aconteceu por lá. A cidade de Bohmte, no norte do país, optou por uma mudança radical quando aboliu de seu centro todos os semáforos, placas de trânsito e faixas de pedestres. A ação faz parte de um projeto financiado pela União Europeia para minimizar o número de acidentes e incentivar novas ideias para o planejamento urbano.
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O projeto “Shared Space” (espaço compartilhado) visa demonstrar que o tráfego flui melhor quando condutores e pedestres têm de prestar mais atenção ao que fazem. E não é só por lá, projetos semelhantes estão em andamento na Holanda, Dinamarca, Bélgica e Reino Unido. Em Bohmte, o plano ainda inclui a reforma de uma via central onde não mais haverá a clara divisão entre rua, ciclovia e calçada. Para os condutores somente duas regras bem distintas deverão ser seguidas: trafegar pela direita e dar a preferência para quem se aproximar pelo lado direito. Em um país onde seis milhões de sinais de trânsito (de um total de vinte milhões) são tidos como supérfluos por especialistas da área por, pasmem, atrapalhar os motoristas, é de se esperar que a ação resulte em bons índices. Por outro lado, é vergonhoso querermos um tratamento semelhante quando os papéis se encontram invertidos. Reclamamos demais e fazemos de menos. Adoramos furar a fila e detestamos que passem a nossa frente. Se esses são os exemplos que levamos para as vias públicas é conclusivo o fato de que os acidentes não são senão a adição da deseducação, com automóveis em demasia, mais estradas deploráveis e sem sinalização. É preferível atuar como personagem secundário das ações que diariamente se desenrolam em nossos cotidianos quando o fundamental seria que cada um se enxergasse como protagonista da situação. Algo impossível de acontecer, certamente não. Basta que a consciência e o respeito pelo próximo passem a fazer parte da rotina de cada um. Afinal de contas, exigir direitos é bem mais fácil do que obedecer a regras. Por: Michelle Sá

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Foto de: Thiago Parísio