Fiat, 120 anos de Brasil: marca perdeu o primeiro trem da indústria nacional
Na década de 1950, italianos visitaram Minas Gerais, mas a fábrica teve que esperar
Na semana passada, contamos aqui a história da Fiat no Brasil desde a chegada dos primeiros carros da marca, por volta de 1906, até o fechamento, por decreto, de sua subsidiária — a Fiat Brasileira S/A — durante a Segunda Guerra Mundial. Nesta continuação, falaremos dos representantes que a companhia italiana teve por aqui até a instalação de sua fábrica, em 1976.
Quando a Segunda Guerra terminou, o Brasil estava com os cofres cheios e, ao mesmo tempo, tinha enorme demanda por automóveis, caminhões e ônibus novos. A Europa, por sua vez, necessitava desesperadamente exportar seus produtos para se reerguer depois de seis anos de mortes, fome e destruição.
Luporini - Anuncio Caminhões Fiat 1947 (1)
Luporini & Cia.
Foi nesse cenário que o empresário Marcelo Luporini, radicado no Rio de Janeiro, viajou a Turim e voltou com um contrato para distribuir os automóveis da Fiat em todo o Brasil.
Comerciante do ramo de rolamentos e diretor da Volvo do Brasil, ele já conhecia bem a marca italiana: na década de 1920, Luporini havia sido agente da Fiat no Rio, quando a representação nacional estava nas mãos da IRF Matarazzo.
Ao se tornar "a concessionária Fiat para o Brasil", em agosto de 1946, a Luporini & Cia. fez uma encomenda inicial de 350 automóveis, distribuídos entre Rio (onde ficava a sede da empresa), São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre.
Além dos Fiat 500 "Pulga" e 1100 de passeio, a Luporini & Cia. também vendia caminhões e ônibus da marca italiana. O contrato de distribuição, contudo, foi encerrado em 1948.
Da época, restam sobreviventes como o Fiat 1100 A, de 1947, pertencente ao ator Orion Ximenes. Ele encontrou o carro abandonado em 1980, restaurou-o e o mantém desde então.
Varam Motores
Em janeiro de 1951, a Varam Motores S/A assumiu a representação da Fiat no Brasil. Pertencente ao comendador Varam Keutenedjian, a empresa já montava, na Via Anchieta, em São Bernardo do Campo (SP), os carros e caminhões da norte-americana Nash. Além disso, importava tratores da britânica Ferguson.
Nesse período, eram vendidos no país os Fiat 500 "Pulga" nas versões conversível, Giardiniera e Furgoncino, além dos sedãs 1100 e 1400. Os carros da marca italiana faziam sucesso nas categorias de pequena cilindrada do automobilismo nacional. Na linha de caminhões, chegavam ao Brasil os modelos a diesel 680/N e o leve 615, para 1,5 tonelada.
Em maio de 1951, o próprio Vittorio Valletta — presidente da Fiat S.p.A. — veio de Turim para conhecer as linhas de montagem da Varam Motores.
"É nossa intenção participar também desse progresso, montando uma linha dos nossos carros. As perspectivas são as melhores possíveis e só descansaremos quando conseguirmos fazer no Brasil o que já foi feito, por exemplo, na França, com as montagens de Simca. Para isso contamos com a organização Varam Motores", afirmou o italiano.
VARAM - assistência técnica Nash e Fiat (1952)
Em abril de 1952, a Subcomissão de Jipes, Tratores e Caminhões, liderada pelo comandante Lucio Meira, reuniu-se com Emil Schmidt, executivo da Varam Motores, para discutir a possível instalação de uma fábrica da Fiat no Brasil. Segundo os jornais, havia "propostas concretas" a respeito.
A Varam, afinal, fazia parte de um seleto grupo que já montava veículos no país: Ford, General Motors, International, Brasmotor (Chrysler e Volkswagen) e Vemag (Studebaker).
Um mês depois, foi a vez do conde Giancarlo Camerana, vice-presidente do grupo Fiat, visitar Varam Keutenedjian em São Paulo e conhecer a linha de montagem da Via Anchieta.
Em entrevista, Camerana previu que, num dia "não muito remoto", os carros da marca seriam "inteiramente montados nas linhas de São Bernardo do Campo, com chapas de Volta Redonda".
"Quando aqui regressar, e não esperarei desta vez cinco anos, conto ver concretizado o que acabo de afirmar!", disse o executivo.
VARAM - Anuncio caminhão Fiat 1952 (1)
Em julho de 1953, o presidente Getulio Vargas e seu braço direito, Lucio Meira, começaram a restringir as importações para estimular a implantação da indústria automobilística no país. Foram elaborados os cronogramas de nacionalização de processos e componentes.
Linhas de montagem logo dariam lugar a fábricas de verdade. E parecia que, muito em breve, haveria um Fiat brasileiro.
Em nossas ruas, os Fiat estavam longe de ser tão numerosos quanto os carros norte-americanos dos grupos GM, Ford e Chrysler. Contudo, em comparação com outras marcas europeias vendidas aqui, a Fiat ocupava posição de destaque.
Em 1954, havia na cidade do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, 1.568 Fiat emplacados — número superior ao de fabricantes tradicionais como Renault, DKW, Mercedes-Benz, Volvo e Opel, além da novata Volkswagen.
A Varam, contudo, preferiu investir numa linha de montagem da japonesa Nissan, então uma ilustre desconhecida por aqui, e começou a nacionalizar o jipe Patrol. A aventura durou apenas dois anos: 1955 e 1956.
Segundo um balanço para acionistas da Varam Motores, datado de 1956, a Fiat era o departamento que recebia menos investimentos do grupo.
O que explica essa desistência de fabricar automóveis Fiat no Brasil? Segundo contava Roberto Nasser, saudoso jornalista automotivo e pesquisador da história da indústria nacional, a Fiat propôs uma sociedade, mas o comendador Varam Keutenedjian não aceitou ser acionista minoritário.
O mais perto que se chegou da produção da marca italiana no Brasil dos anos 1950 foram os tratores FNM-Fiat feitos em Xerém (RJ), pela Fábrica Nacional de Motores.
Em 1960, a Fiat começou a produzir os modelos 600 e 1100 na Argentina.
Fiat 1900 - Revista de Automóveis (1955) (1)
Primeira sondagem em BH
Numa viagem à França em 1955, antes mesmo de tomar posse como presidente da República, Juscelino Kubitschek visitou a Simca e fez o convite para que a companhia produzisse automóveis no Brasil. A ideia era instalar a fábrica em Minas Gerais, seu estado natal.
Em 1958, foi constituída a Simca do Brasil, com capital dividido igualmente entre investidores europeus e brasileiros. Os principais acionistas seriam a Simca francesa, o Banco Francês e Brasileiro, a Companhia Siderúrgica Nacional e um grupo de bancos mineiros.
Acontece que a matriz da Simca francesa tinha grande participação acionária da italiana Fiat — tanto de forma oficial (e histórica) quanto por baixo dos panos, por meio de bancos suíços.
Em sua tese de mestrado A chegada da Fiat no Brasil (USP, 2019), Marcos Olmos Pedroni mostra que a Fiat participou ativamente do projeto da Simca no Brasil, inclusive com uma missão de executivos, em 1958, para avaliar o local da futura fábrica, fornecedores e o mercado brasileiro. Outro documento, de 1959, indica que a Fiat ficou encarregada de elaborar o projeto da fábrica da Simca em Minas Gerais.
A ideia era que a Simca alugasse a linha de produção da Varam Motores, na Via Anchieta, apenas durante o início da produção, enquanto sua própria fábrica era construída em Santa Luzia, na região metropolitana de Belo Horizonte — cidade muito elogiada pela equipe de prospecção.
No fim, por brigas políticas, o projeto mineiro não saiu do papel, e a Simca acabou comprando as instalações da Varam. Mais tarde, a Chrysler assumiria a Simca francesa, herdando sua fábrica brasileira — mas essa já é outra história.
Galeria: Fiat, 120 anos de Brasil (Parte 2)
Carro da moda
Fato é que a Fiat sumiu por algum tempo do Brasil. Chegou-se até a cogitar fabricar modelos da marca na Vemag, empresa de capital brasileiro que produzia os DKW.
A partir de 1966, os Fiat voltaram, agora por meio de importadores independentes — em especial a Condorsa, na Zona Sul do Rio de Janeiro.
A agência chegou a trazer alguns sedãs Fiat 1500, de quatro portas, mas o forte eram os pequeninos esportivos 850 Coupé e 850 Spider, ambos com motor traseiro. Logo viriam também os charmosos Fiat 124 Sport Spider e 124 Sport Coupé.
Pagando altas taxas de importação, eram carros destinados a endinheirados como a cantora Elis Regina e o jovem craque Paulo Cezar Caju. Essa onda durou até o começo dos anos 1970. Era um jeito de se destacar no mar de Fuscas. "Um carro DIFERENTE", como enfatizava um anúncio em letras maiúsculas.
Mas logo os Fiat deixariam de ser carros tão exclusivos... A fábrica de Betim será inaugurada na terceira parte desta reportagem.
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