Fiat, 120 anos de Brasil: a primeira parte de uma história esquecida
Marca festeja cinquentenário em Betim, mas sua existência no país é bem mais antiga
Nos próximos meses, você ouvirá falar muito dos “50 anos da Fiat no Brasil”. Mas o que poucos sabem hoje em dia é que, quando inaugurou oficialmente sua fábrica em Betim, em 9 de julho de 1976, a marca italiana já tinha... 70 anos de Brasil! Somando tudo, já são 120 anos.
São tantas histórias e representantes que a marca teve antes de 1976 que tivemos de dividir o tema em duas partes. Na coluna de hoje, falaremos da chegada dos primeiros Fiat ao Brasil, na primeira década do século XX, e seguiremos até a interrupção das importações durante a Segunda Guerra Mundial.
Alfredo Elysario - um entusiasmado representante Fiat (1909-1914)
Um dos registros mais antigos da presença da Fiat no Brasil é de abril de 1906. A Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, dava conta de que os automóveis começavam a fazer parte da paisagem da cidade, então capital do país. Segundo a reportagem, o empresário ítalo-brasileiro Paschoal Segreto, então o rei da noite do Rio, com seus teatros e cinematógrafos, já tinha “um magnífico Fiat” a seu serviço.
O número de automóveis crescia rapidamente: em meados de 1907, já eram 277 carros e caminhões de todas as marcas no Rio — cinco deles Fiat. O interesse pela novidade era tanto que já havia até disputas pela distribuição da marca.
Em São Paulo, a Perracini & Comp anunciou entre junho e julho de 1907 ser representante dos automóveis, ônibus, lanchas e botes da Fiat. Na oficina dos irmãos Grassi — que mais tarde ganhariam fama encarroçando ônibus — os carros da marca eram tirados dos caixotes e postos em ordem de marcha.
Perracini X Tomaselli - representantes em 1907
Não demorou e veio um aviso à praça afirmando que a Fabbrica Italiana Automobili Torino havia nomeado a firma Tomaselli, Raul Senra & C. como “única e exclusiva representante para a venda dos produtos da Fiat” em todo o Brasil. O contrato foi firmado em 12 de agosto de 1907 e o anúncio trazia a assinatura de “Fiat America Latina”.
“Protestamos, portanto, desde já contra aqueles que possam abusivamente se intitular possuidores de igual mandato”, enfatizava o comunicado.
A Tomaselli, Raul Senra & C. era uma companhia de importação com matriz no Rio e filial em São Paulo. Como tantas empresas do gênero, dedicava-se à venda de uma enorme gama de mercadorias: tecidos, pentes, roupas para crianças, vidros, cimento... Os automóveis eram apenas mais um dos itens transportados nos navios que vinham de Nápoles e Gênova.
Foi por essa época que o sofisticado Hotel dos Estrangeiros, no bairro carioca do Flamengo, apresentou uma novidade: seus hóspedes tinham à disposição dois carros Fiat dirigidos por chauffeurs. Isso voltará à nossa história mais adiante.
Sylvio Penteado no Circuito de Itapecerica (1908)
A primeira corrida (1908)
Em 26 de julho de 1908, um carro da Fiat conquistou um título que jamais poderá ser obtido por outra marca: vencedor da primeira corrida automobilística disputada oficialmente no Brasil. Foi o Circuito de Itapecerica, com largada e chegada no Parque Antarctica, na Barra Funda, em São Paulo.
O trajeto percorria ruas, avenidas e estradas, passando por Pinheiros e M’Boi Mirim até chegar a Itapecerica (hoje Itapecerica da Serra) de onde os carros retornavam ao ponto de partida por Santo Amaro. Acompanhada por multidões, a prova foi um grande acontecimento na capital paulista.
Fiat 28-40 HP, vencedor da primeira corrida no Brasil (1908)
Ao volante de um Fiat 28-40 HP — igualzinho ao usado por Felice Nazzaro para vencer a Targa Florio de 1907, na Itália — o jovem milionário paulista Sylvio Penteado venceu a corrida, percorrendo os 74 quilômetros do trajeto em 1 hora, 30 minutos e 5 segundos, o que perfazia uma impressionante média de 49,3 km/h.
Em 1909 foi a vez do Circuito de São Gonçalo, no Estado do Rio. O Lorraine-Dietrich 80 HP de Jorge Haentjens venceu a prova, mas os Fiat de 75 e 50 HP chegaram em segundo e terceiro lugares na categoria principal.
Casa Fiat, a primeira concessionária (1909)
A Tomaselli, Raul Senra & C. tinha outras prioridades e não ficou muito tempo com a representação da Fiat, dando lugar a um novo personagem dessa história: Alfredo Elysiario da Silva, proprietário do já citado Hotel dos Estrangeiros.
Figura das mais progressistas e entusiasmadas, Elysiario deve ter se encantado com os Fiat que transportavam seus hóspedes. Fato é que, em 1909, ele conseguiu tornar-se o agente geral da marca no Brasil — ou “o único representante dos automóveis Fiat” no país, como gostava de anunciar.
Alfredo Elysiario - foco na esportividade 1911
Mais do que simplesmente importar e vender automóveis zero-quilômetro, que era a prática usual na época, Elysiario implantou o modelo que hoje associamos às concessionárias. Para isso, inaugurou a Casa Fiat, com loja na recém-inaugurada Avenida Central (hoje Rio Branco), número 47, e área de serviços na Rua das Laranjeiras, 530, em plena Zona Sul do Rio.
O espaço reunia oficina de manutenção, amplo estoque de peças de reposição e acessórios, além da estrutura necessária para atender os proprietários da marca. O empresário tornou-se também representante da marca belga de pneus Jenatzy — e até tentou fabricar seus próprios pneus no Brasil.
A linha Fiat incluía não apenas carros de passeio, mas também furgões, ambulâncias, caminhões e até motores para lanchas. Alguns exemplares já eram usados como viaturas policiais. Elysiario chegou a demonstrar autobombas para o Corpo de Bombeiros, uma grande novidade para a época.
Suas propagandas quase sempre tinham apelo esportivo, com fotos de motores de competição ou do piloto Nazzaro, uma das primeiras superestrelas do automobilismo.
O primeiro caminhão em Mato Grosso (1909)
Em 1909, um caminhão Fiat 28-40 HP foi pioneiro ao desbravar o interior do Brasil. Com capacidade para transportar até quatro toneladas e atingir 50 km/h, o veículo foi posto a serviço do então tenente-coronel Candido Mariano Rondon, responsável pela construção da estratégica linha telegráfica que ligaria Mato Grosso ao Amazonas.
Em meio a regiões praticamente intransitáveis, o caminhão avançava a uma média de apenas 23 km/h. Muitas vezes, antes que pudesse seguir viagem, era necessário abrir caminhos, construir estradas e preparar alguma infraestrutura que permitisse sua passagem.
Alfredo Elysiario - caminhão Fiat 1911
A novidade causou grande impressão na época. Um relato publicado em Mato Grosso registrava:
“Parece-nos ser esta a primeira vez que, em nosso estado, se põem automóveis para condução de passageiros e transporte de cargas, não se havendo introduzido antes por não o permitirem as condições acidentadas das nossas estradas”.
O episódio marcou uma das primeiras utilizações de veículos motorizados em larga escala no interior brasileiro. Em 1910, já havia carros Fiat rodando em Manaus — levados de navio, é claro.
Companhia Mechanica e Importadora de S. Paulo (1912)
Dos 1.365 carros particulares e de praça existentes em São Paulo, 118 eram Fiat. Era a segunda marca no ranking dos emplacamentos, atrás apenas da francesa Berliet. No Rio, com 2.412 automóveis registrados, havia somente 77 Fiat, o que deixava a marca na oitava posição.
Assim, era natural que houvesse uma troca de comando. Em 1912, apesar de todos os avanços, Elysiario deixou de ser o agente Fiat do Brasil, embora mantivesse sua bem equipada oficina, que chegou a fabricar carrocerias completas.
A representação da marca foi repassada à Companhia Mechanica e Importadora de S. Paulo, empresa dedicada à importação de artigos dos mais diversos segmentos urbanos e agrícolas.
Como o nome indica, sua sede ficava em São Paulo, cidade que abrigava uma forte colônia italiana. A companhia mantinha ainda filiais em Santos, no Rio e em Londres, chegando a anunciar no Brasil carros da Fiat encarroçados na Inglaterra pela Carrosserie Van den Plas.
Alfredo Eysiario - carroceria feita na Casa Fiat, no Rio (1916)
Começava a era dos raids, provas audaciosas que serviam para demonstrar a resistência dos automóveis, provando que podiam vencer os caminhos mais inóspitos do país.
Em 1913, um Fiat 45 HP guiado por Antônio Prado Júnior rodou, em quatro dias, mais de 700 km entre São Paulo e Ribeirão Preto. No ano seguinte, Edu Chaves, em um Fiat 80 HP, estabeleceu o recorde sul-americano de distância em automóvel ao percorrer 856 km entre os estados de São Paulo e Paraná.
Depois da Primeira Guerra Mundial, o modelo de maior sucesso da marca no Brasil passou a ser o Fiat 501, equipado com motor de quatro cilindros e 1.450 cm³. Os automóveis da fabricante italiana tornavam-se mais compactos. Ou, como diziam as propagandas, eram “elegantes, econômicos e rápidos, para comerciantes, médicos e senhoras”.
Indústrias Reunidas F. Matarazzo (1923)
Ainda no auge do sucesso do 501, a Fiat nomeou um novo representante no país: o ítalo-brasileiro Francesco Matarazzo, então considerado o homem mais rico da América do Sul. A Fiat seria apenas mais uma das cerca de 350 empresas controladas pelas Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo (IRFM).
Matarazzo - Stand da Fiat na exposição de 1923
Um carro interessante desse período era o Torpedo 501 Colonial, tropicalizado para as duras condições brasileiras de piso e temperatura. Havia, porém, modelos mais luxuosos, como os 520 convencionais, de seis cilindros, e a enorme limusine Super Fiat, equipada com um V12 de 6,8 litros e 90 cv.
Fiat Brasileira S/A — a matriz assume o negócio (1928)
Entre o Natal de 1927 e o início de 1928, a própria Fiat italiana abriu uma filial no Brasil. O conde Francesco Matarazzo “passou a faixa” amigavelmente, com direito a um discurso em italiano congratulando a iniciativa da empresa.
Fiat Brasileira SA - promoções para mulheres (1938)
Na época da implantação da Fiat Brasileira S/A, o 501 Torpedo, modelo mais acessível da marca, custava 6:750$ (seis contos e setecentos e cinquenta mil-réis), enquanto o recém-lançado Ford Modelo A, carro mais barato e líder absoluto de vendas no Brasil, saía a partir de 5:900$.
A filial brasileira fechou seu primeiro ano com 906 carros vendidos. A empresa estava presente em São Paulo e no Rio de Janeiro. Com um simples telefonema, era possível marcar um test-drive do Fiat 520, de seis cilindros.
Fiat Brasileira SA - caravana SP-Rio (1931)
Um evento marcante da Fiat Brasileira S/A aconteceu em 1931, quando uma caravana de 130 carros levou jornalistas e proprietários de Fiat de São Paulo ao Rio, numa época em que esse percurso rodoviário ainda tinha ares de aventura, com direito a parada para almoço no campo.
O objetivo da viagem era recepcionar a esquadrilha de 11 hidroaviões Savoia-Marchetti S.55 que havia cruzado o Atlântico sob o comando do general Italo Balbo. Fascista de primeira hora, ele era o ministro da Aeronáutica de Mussolini.
Fiat Brasileira SA - 508 Balilla e 500 Pulga, apelos à economia
O maior êxito dessa nova fase da Fiat foi o 508 Balilla (1932-1939), modelo que marcou o início da motorização em massa na Itália. Com motor de quatro cilindros, 995 cm³ e 20 cv, o carrinho era anunciado com a promessa de percorrer 14 km com apenas um litro de combustível — uma façanha para a época.
Os modelos 514, 515 e 522, por sua vez, podiam vir equipados com um grande teto solar, uma espécie de Sky Window da década de 1930.
Fiat Brasileira SA - teto panorâmico e teste por telefone
A exemplo de Ford e General Motors, que já produziam no país, a Fiat Brasileira S/A também cogitou construir uma fábrica local. O projeto seria implantado no Paraná e envolveria não apenas automóveis, mas também pneus, motores, aviões e material bélico. A empresa vendia ainda locomotivas e litorinas. A crise econômica mundial, porém, abortou os planos.
Em 1938 chegou por aqui o Fiat 500. Enquanto na Itália o pequenino modelo era chamado popularmente de Topolino (“ratinho”), no Brasil o apelido que pegou foi “Pulga”. Com apenas 3,21 metros de comprimento, o carrinho fez sucesso. Seu público-alvo eram principalmente as mulheres, que tinham direito a um financiamento especial em módicas prestações, incluindo até um curso de direção.
Mesmo com o início da Segunda Guerra Mundial na Europa, a Fiat Brasileira S/A manteve suas importações até 1941.
Com a entrada do Brasil na guerra, em 1942, as coisas ficaram mais difíceis. Como tantas empresas controladas por italianos, alemães e japoneses (os países do Eixo), a Fiat Brasileira S/A foi posta sob intervenção federal em junho de 1943 e liquidada quatro meses depois.
A guerra interrompeu temporariamente a trajetória da marca no país, mas ainda haveria muita estrada pela frente.
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